Apesar das grandes reservas de gás natural, carvão e minerais, mais de 60% da população moçambicana vive na pobreza. O desafio está em transformar os recursos do país em melhores condições de vida.
Moçambique vive uma das suas maiores contradições: é um país dotado de vastos recursos naturais, mas onde milhões de pessoas continuam a enfrentar condições severas de pobreza. Gás natural, carvão, ouro e outros minerais atraem grandes investimentos e colocam o país no centro de interesses econômicos internacionais. No entanto, essa riqueza ainda está longe de se traduzir em melhores condições de vida para a maioria da população.
Os números ajudam a compreender a dimensão do problema. Segundo o Banco Mundial, a taxa nacional de pobreza aumentou de 48,4% em 2014/2015 para 62,9% em 2022. Nesse período, cerca de sete milhões de moçambicanos passaram a viver em situação de pobreza, elevando o total para aproximadamente 20,4 milhões de pessoas.
Outro indicador revela uma realidade ainda mais preocupante. Pelos critérios internacionais do Banco Mundial, 81,4% da população vivia, em 2022, com menos de três dólares por pessoa por dia, considerando a paridade do poder de compra — um cálculo que leva em conta as diferenças no custo de vida entre os países.
Os dois indicadores utilizam critérios distintos, mas apontam para a mesma realidade: a pobreza atinge uma parcela expressiva da sociedade moçambicana.
A pergunta que se coloca é inevitável: como pode um país tão rico em recursos naturais continuar com níveis tão elevados de pobreza?
A riqueza que não chega à população
A resposta não está apenas na existência ou na ausência de recursos. Está também na forma como essas riquezas são exploradas, tributadas e administradas, e na capacidade do Estado de transformar as receitas obtidas em benefícios concretos para a população.
Moçambique possui importantes reservas de gás natural, especialmente na província de Cabo Delgado, no norte do país. A região concentra grandes projetos de exploração destinados ao mercado internacional. O carvão mineral, sobretudo na província de Tete, também ocupa um lugar importante na economia extrativa.
Essas atividades podem gerar receitas significativas para o Estado, mas não garantem, por si só, a criação de empregos em larga escala ou a melhoria dos serviços públicos. A exploração de recursos naturais exige investimentos elevados e utiliza tecnologias que nem sempre absorvem grande quantidade de trabalhadores locais.
Enquanto isso, boa parte da população continua dependente da agricultura, frequentemente desenvolvida em pequenas propriedades, com poucos recursos tecnológicos e baixa produtividade. O próprio Banco Mundial identifica essa situação como um dos obstáculos à redução da pobreza no país.
A economia moçambicana também enfrenta outros problemas, como o endividamento público, os efeitos de desastres climáticos e a insegurança em Cabo Delgado. São fatores que dificultam o desenvolvimento econômico e atingem principalmente as populações mais vulneráveis.
Quem se beneficia dos recursos naturais?
A existência de grandes reservas minerais e energéticas deveria abrir possibilidades para ampliar os investimentos em educação, saúde, infraestrutura e geração de empregos. Mas isso depende de decisões políticas, da transparência na gestão das receitas públicas e da capacidade de fazer com que a exploração desses recursos beneficie efetivamente a sociedade.
Há uma distância evidente entre a riqueza que o país possui e aquela que chega à mesa das famílias.
O gás pode gerar receitas bilionárias, mas não alimenta uma família por si só. O ouro pode valer milhões, mas não constrói automaticamente uma escola. O carvão pode ser exportado em grandes quantidades, mas isso não significa, necessariamente, emprego digno ou melhores condições de vida para os trabalhadores.
É preciso perguntar não apenas quanto Moçambique produz ou exporta, mas quem se beneficia dessa produção e como os resultados são distribuídos.
O desenvolvimento de um país não pode ser medido exclusivamente pelo valor dos seus recursos naturais ou pelo crescimento da economia. Precisa ser observado também nas condições de vida da população, no acesso à alimentação, à educação, à saúde e às oportunidades de trabalho.
Moçambique não enfrenta apenas o desafio de produzir riqueza. Enfrenta, sobretudo, o desafio de transformar a riqueza nacional em bem-estar social.
Enquanto isso não acontecer, continuará a existir uma imagem desconcertante: um país rico debaixo da terra e pobre na superfície.



