Montepuez é a terra que guarda pedras preciosas e mais outros minerios, mas os filhos dessa mesma terra parecem condenados a procurar o pão entre o medo, as armas e a incerteza. Em Namanhumbir, distrito de Montepuez, Cabo Delgado, os rubis continuam a valer milhões no mercado internacional, enquanto circulam denúncias de mortes, baleamentos e detenções de jovens que procuram no garimpo uma saída para a pobreza.
Segundo relatos locais divulgados pelo Moz24h e reproduzidos pelo Em Primeiro, dois garimpeiros artesanais terão sido mortos a tiro nos dias 15 e 16 de outubro. As fontes atribuem os disparos a agentes da Unidade de Intervenção Rápida (UIR), que estariam a prestar serviços de segurança na zona. Há também relatos de feridos e de detenções. As acusações, contudo, carecem de confirmação independente, e não foi apresentada no texto uma versão da UIR ou da empresa.
É precisamente aqui que a questão deixa de ser apenas sobre garimpo ilegal e passa a ser sobre a vida humana. Como compreender que jovens, sem oportunidades suficientes de emprego, formação profissional e acesso à educação, arrisquem a própria vida para retirar da terra alguma possibilidade de sobrevivência?
A exploração de rubis pela Montepuez Ruby Mining, operada pela britânica Gemfields, movimenta valores expressivos. O leilão realizado em outubro terá rendido 52 milhões de dólares, segundo os dados citados na publicação. Mas, quanto dessa riqueza se traduz em dignidade, oportunidades e segurança para as comunidades que vivem junto das minas?
Não se trata de legitimar actividades ilegais nem de ignorar os desafios de segurança. Trata-se de exigir que a lei proteja vidas, que as denúncias sejam investigadas e que a riqueza mineral produza benefícios concretos para a população.
Porque seria uma contradição insuportável se, em Montepuez, os rubis continuassem a brilhar nas vitrinas do mundo, enquanto os jovens da terra fossem condenados a caminhar de muletas, ou deixassem de caminhar para sempre.
Fonte: https://www.emprimeiro.blog/2026/10/continua-a-jorrar-sangue-nos-rubis-de-namanhumbir-montepuez.html



