Há tragédias que não podem ser reduzidas a números, nem enterradas sob o peso da indiferença. Em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, a violência continua a roubar vidas, sequestrar crianças, expulsar famílias e aprofundar o sofrimento de comunidades inteiras. A denúncia do bispo de Pemba, Dom António Juliasse, devolve à consciência nacional uma pergunta incontornável: até quando?

Ao denunciar a decapitação de cristãos e a multiplicação de raptos, o prelado recusa a normalização de uma guerra que, nove anos depois dos primeiros ataques, continua a produzir medo, deslocamento e incerteza. A sua posição é inequívoca: calar perante a morte e o sofrimento significa, de algum modo, compactuar com a tragédia.

O drama torna-se ainda mais cruel quando a insegurança se combina com a fome. Famílias que abandonaram as suas terras em busca de proteção encontram dificuldades para obter alimentos, cultivar e reconstruir a vida nos centros de reassentamento. Algumas regressam às aldeias de origem, mesmo sabendo que a ameaça permanece. Entre a precariedade e o perigo, procuram apenas sobreviver.

Dom Juliasse também chama a atenção para as limitações da resposta humanitária e para a ausência de sinais objetivos que permitam afirmar que o conflito está próximo do fim. A presença de forças militares estrangeiras, por si só, não significa que a população esteja protegida em todo o território.

A denúncia do bispo ultrapassa, portanto, o campo religioso. É um apelo moral, político e humano dirigido às autoridades, às instituições e à sociedade moçambicana. Cabo Delgado não pode transformar-se numa tragédia esquecida, tolerada pela repetição das notícias e pela distância de quem não vive diariamente sob ameaça.

Quando crianças são raptadas, famílias fogem e comunidades enterram os seus mortos para depois reconstruírem as próprias casas, o silêncio preocupa demasiadamente e ele mesmo vira uma forma de abandono.

Fonte: https://agencia.ecclesia.pt/portal/mocambique-bispo-de-pemba-denuncia-decapitacao-de-cristaos-e-sequestros-no-norte-do-pais/