Frustração no Congresso e mobilizações expressivas nas ruas
Na quinta-feira, 15 de outubro de 2026, uma das maiores jornadas de luta contra a política de ajuste do governo de Javier Milei tomou as ruas de todo o país. O epicentro foi a concentração no Congresso Nacional, onde deveria ocorrer uma sessão especial para tratar o Decreto de Necessidade e Urgência (DNU) 70/2023, peça central do ajuste econômico e social promovido pelo governo.
Apesar da convocação de diversos setores críticos ao ajuste, a sessão de deputados foi frustrada pela falta do quórum, circunstância promovida por um conjunto de aliados do governo e opositores conciliadores que se ausentaram. Desta forma, o governo blindou o DNU 70/2023 no Poder Legislativo, postergando seu enfrentamento institucional.
Nas ruas, dezenas de milhares de pessoas responderam à convocação e protestaram contra as medidas que alteram regras econômicas, trabalhistas e sociais, incluindo a flexibilização da lei de terras rurais, a desregulamentação da medicina privada e novas facilidades para financiamentos com juros elevados que aumentam o endividamento popular.
Resistência popular apesar da repressão
O protesto, que começou pacífico, enfrentou forte repressão policial a partir do meio da tarde, com uso de gás lacrimogêneo, jatos de água e ataques da polícia montada para dispersar os manifestantes. Várias frentes de resistência permaneceram na Praça do Congresso e arredores, reconstruindo barricadas improvisadas com contêineres e outros materiais para deter a ação policial.
Organizadores denunciaram ao menos 31 detidos e apontaram que a repressão buscou intimidar a mobilização e impor o silêncio ao descontentamento social.
Articulação e demandas unificadas no país
Além de Buenos Aires, manifestações relevantes aconteceram em cidades como Rosario, Mendoza, Neuquén, Córdoba, Mar del Plata e San Miguel de Tucumán, com adesão estimada em milhares por local. Os protestos integraram também demandas pela emergência en discapacidad y el financiamiento universitario, áreas duramente afetadas pelas políticas de ajuste.
Organizações sindicais, sociais, estudantis, ambientalistas, comunidades indígenas e agrupações políticas da esquerda protagonizaram as manifestações, buscando construir uma coordenação nacional para fortalecer as futuras mobilizações e pressionar por uma greve geral ativa que possa parar a máquina econômica e política do governo.
Operação de mídia para deslegitimar os protestos
Enquanto a mobilização se intensificava, uma ampla campanha midiática foi orquestrada para criminalizar os manifestantes. Grandes veículos repercutiram a versão governamental que colocou o foco em supostos “infiltrados violentos” e “encapuchados” para justificar o uso desmedido da força policial. Imagens e relatos do local mostraram uma polícia atacando de forma indiscriminada candidatos pacíficos, com carros hidrantes e gás lacrimogêneo através da praça lotada.
O relato oficial, amplificado pelos principais canais de televisão, desviou a atenção das causas profundas do protesto e da ilegalidade do governo em impor medidas por DNU sem consenso, fortalecendo uma narrativa de autoritarismo estatal.
Contexto e desafios à luta popular
O DNU 70/2023 revoga legislações que protegiam trabalhadores, inquilinos e povos originários, facilitando a compra massiva de terras por estrangeiros e desmontando garantias sociais e econômicas conquistadas. A resistência nas ruas expressa o descontentamento acumulado diante do avanço de um governo que associa políticas liberais radicais a uma escalada repressiva e a pactos com setores tradicionais do poder político, que atuam para manter a ordem atual.
As manifestações de 15 de outubro sinalizam um cenário de crescente polarização política e social, com a classe trabalhadora e a juventude convocando a construção de uma coordenação ampla para estratégias de luta mais contundentes, em especial a convocação de uma greve geral que possa enfrentar o ajuste, a entrega de soberania e o autoritarismo em curso.
Este panorama desvela as tensões entre governabilidade e contestação social no país, com impactos profundos nas condições de vida populares e nos rumos da democracia argentina.
Fontes: La Izquierda Diario – Jornada de lucha contra DNU 70/2023; La Izquierda Diario – Campaña mediática en defensa de la represión



