A nova face do controle político e econômico na América Latina
Transformações estratégicas na política latino-americana revelam como ferramentas digitais e interesses econômicos globais convergem para manipular percepções e decisões eleitorais, impactando diretamente o cenário democrático regional. Aspectos desse fenômeno ficaram evidentes após a prisão de Fernando Cerimedo, consultor político e estrategista digital argentino, investigado em conexão a um atentado contra a advogada boliviana Nadia Beller.
Cerimedo, segundo reporta Outras Palavras, não é um mero agitador: colaborou com líderes da direita e da extrema direita, incluindo Jair Bolsonaro e Javier Milei, assim como supostos laços com o boliviano Rodrigo Paz, e atua em plataformas digitais que propagam desinformação e manipulam redes sociais com trollagem coordenada. Ele representa um elo chave entre campanhas políticas conservadoras e a economia emergente da desinformação digital.
Economia da atenção e o papel das big techs
Essa operação é parte de um esquema mais amplo, no qual a desinformação serve como moeda para capturar a atenção em plataformas como Meta, cuja receita depende quase totalmente da publicidade. Conforme o estudo, o lucro da Meta em 2025 ultrapassou US$60 bilhões, majoritariamente originados da interação dos usuários com conteúdos que fomentam conflito e polarização, mesmo que baseados em falsidades.
Tal dinâmica industrializa mentiras com o objetivo de reagrupar audiências, convertendo a atenção em capital, aprofundando monopólios digitais que regulam a circulação da informação na América Latina. A concentração dessa economia em poucas mãos se soma às disparidades já existentes no continente, inserido numa disputa geopolítica que envolve, principalmente, Estados Unidos e China.
Geopolítica digital e disputa econômica entre Estados Unidos e América Latina
Na arena geoeconômica, a política externa estadunidense, durante o governo Trump, rompeu com a diplomacia tradicional para garantir a preponderância dos interesses norte-americanos sobre dados, infraestruturas digitais e serviços, como ilustrado pela investigação contra o Pix – sistema brasileiro de pagamentos eletrônicos instantâneos.
Essas disputas têm implicações concretas para o desenvolvimento soberano do continente, já que a defesa de infraestruturas nacionais esbarra na pressão por abertura de mercado para gigantes tecnológicas americanas. Essa questão estende o antigo padrão colonial de extração na América Latina, não mais centrado apenas em recursos naturais como ouro ou petróleo, mas agora focalizado em dados, atenção e informações das populações locais.
Entre desinformação e concentração econômica, um desafio estrutural
A lógica da “falsolatria”, culto à mentira como base econômica articulada com grandes empresas e atores políticos conservadores, fragiliza instituições democráticas e fomenta a polarização social. Além disso, o caminho escolhido—onde capitais do Vale do Silício acumulam poder econômico e controle sobre o fluxo informacional—repete padrões históricos de exploração sob nova investida tecnológica e econômica.
O caso Cerimedo expõe fissuras nesse sistema, mas reforça que o problema excede indivíduos e exige análise profunda das intersecções entre tecnologia, política, economia e soberania no horizonte da América Latina.



