Manifestações organizadas pelo movimento March and March exigem medidas mais rígidas de controle migratório e aumentam a preocupação de estrangeiros que vivem no país, incluindo milhares de moçambicanos.

A África do Sul voltou a registrar manifestações contra a imigração irregular em 30 de setembro de 2026. Organizados pelo movimento March and March, os protestos ocorreram em diferentes cidades do país, com a participação de grupos que exigem do governo medidas mais rigorosas de fiscalização das fronteiras e a deportação de estrangeiros sem documentação regular.

Uma das principais mobilizações ocorreu em Durban, cidade portuária localizada na costa leste sul-africana, onde centenas de manifestantes saíram às ruas. O movimento havia estabelecido o dia 30 de setembro como prazo para que imigrantes em situação irregular deixassem o território nacional. A exigência, entretanto, não tinha qualquer reconhecimento legal por parte das autoridades.

O que é o movimento March and March?

O March and March é um movimento sul-africano que ganhou projeção nacional ao organizar manifestações contra a presença de imigrantes sem documentação regular. Liderado por Jacinta Ngobese-Zuma, o grupo defende o endurecimento das políticas migratórias e responsabiliza a imigração irregular por parte dos problemas sociais enfrentados pelo país, especialmente o desemprego, a criminalidade e a pressão sobre os serviços públicos.

Essas reivindicações ganharam força num contexto de elevada desigualdade social e dificuldades econômicas na África do Sul. Entretanto, organizações de defesa dos direitos humanos e ativistas alertam que responsabilizar os estrangeiros por esses problemas pode estimular a xenofobia, isto é, a hostilidade e a discriminação contra pessoas de outras nacionalidades.

Em 30 de junho, o movimento já havia promovido uma grande mobilização nacional, levando milhares de pessoas às ruas. Na ocasião, as autoridades reforçaram a presença policial para evitar confrontos. O então ministro interino da Polícia, Firoz Cachalia, informou que a operação de segurança custaria aproximadamente 600 milhões de rands, moeda oficial sul-africana.

Os protestos de setembro também incorporaram reivindicações relacionadas ao combate à criminalidade e à violência contra as mulheres, ampliando as pautas inicialmente concentradas na imigração.

Preocupação entre os imigrantes moçambicanos

A retomada das manifestações provoca preocupação entre estrangeiros que vivem e trabalham na África do Sul, especialmente aqueles provenientes de países vizinhos, como Moçambique e Zimbábue.

A África do Sul é um dos principais destinos da migração moçambicana, uma relação construída ao longo de décadas. Muitos moçambicanos atravessam a fronteira em busca de emprego, oportunidades econômicas e melhores condições de vida. Há também famílias que mantêm vínculos sociais e econômicos nos dois países.

Por isso, o aumento das tensões migratórias não representa apenas uma questão interna sul-africana. A hostilidade contra estrangeiros pode afetar diretamente trabalhadores e famílias moçambicanas, inclusive pessoas que vivem legalmente no país.

A preocupação não é recente. A África do Sul possui um histórico de episódios de violência xenófoba, incluindo ataques contra imigrantes, destruição de estabelecimentos comerciais e deslocamentos forçados de comunidades estrangeiras. Em setembro, confrontos envolvendo manifestantes anti-imigração e refugiados na cidade de Durban já haviam provocado temor entre os estrangeiros.

Imigração e tensões sociais

As manifestações recolocam no centro do debate sul-africano questões relacionadas à fiscalização das fronteiras, ao acesso ao emprego, à segurança pública e à convivência entre cidadãos nacionais e estrangeiros.

Embora os organizadores afirmem que suas reivindicações são direcionadas à imigração irregular, a repetição de protestos e os episódios de hostilidade demonstram que seus efeitos podem ultrapassar a discussão sobre documentação migratória.

Para os moçambicanos que vivem na África do Sul, a situação exige atenção, sobretudo diante do risco de novas manifestações e confrontos. O desenvolvimento dessa mobilização também interessa a Moçambique, considerando a proximidade geográfica, a circulação de trabalhadores e os vínculos econômicos e familiares existentes entre os dois países.

O desafio das autoridades sul-africanas é responder às demandas por políticas migratórias e segurança pública sem permitir que a insatisfação social se transforme em violência contra estrangeiros.