Organismo da CNBB documenta série de agressões políticas e religiosas
Bispos e dirigentes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) receberam no dia 28 de setembro de 2026 um extenso relatório da Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP), entidade vinculada à própria CNBB. O documento compilou 58 episódios de ataques promovidos pela extrema direita entre 2018 e 2026, com o objetivo claro de deslegitimar a atuação da Igreja Católica no país.
Segundo a reportagem do Brasil de Fato que obteve exclusividade sobre o relatório, a CBJP detalha que as agressões variam desde acusações infundadas de ligações financeiras com o Partido dos Trabalhadores (PT) e o comunismo, até a tentativa de desqualificar o trabalho pastoral da CNBB, especialmente a Campanha da Fraternidade, constantemente alvos de boicotes e campanhas para que fiéis deixem de contribuir com suas coletas anuais.
Contexto e principais ataques registrados
O levantamento inicia com um episódio de fevereiro de 2018, em que o blogueiro Bernardo Kuster, ligado à extrema direita e investigado no inquérito das Fake News pelo Supremo Tribunal Federal, produziu um vídeo acusando a CNBB de politização e associação à esquerda. Kuster também atua em campanhas eleitorais ligadas ao bolsonarismo.
Em outubro de 2018, o então presidente Jair Bolsonaro qualificou publicamente a CNBB como “a parte podre da Igreja Católica”. Em 2019, o presidente da CNBB, dom Walmor Oliveira, passou a ser alvo de ataques por suposta associação à esquerda e à teologia da libertação, sob ataques que o chamavam de “petista” e “dilmista”. Em junho do mesmo ano, Eduardo Bolsonaro afirmou em sua rede social que a esquerda teria se infiltrado na Igreja Católica por meio da CNBB.
O documento também destaca um caso grave ocorrido em julho de 2020, quando 152 bispos foram supostamente espionados por uma estrutura paralela da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Essas autoridades religiosas haviam assinado a “Carta ao povo de Deus”, criticando a resposta do governo Bolsonaro à pandemia de Covid-19, o que desencadeou mais ataques nas redes sociais, incluindo acusações de que a CNBB seria uma entidade bolivariana.
Nos anos seguintes, ataques continuaram, como os direcionados a dom Odilo Scherer, criticado por usar roupas vermelhas em foto de perfil durante a campanha presidencial de 2022, e a declarações do deputado federal Paulo Bilynskyj qualificando a CNBB de “antro de comunistas”.
Polêmicas recentes ligadas à candidatura de Flávio Bolsonaro
Em 2026, a campanha eleitoral do senador Flávio Bolsonaro intensificou o confronto com a Igreja Católica. Uma desinformação envolvendo um suposto projeto para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil viralizou nas redes sociais, apesar de a proposta ter sido arquivada em 2007.
Flávio Bolsonaro negou a intenção de alterar a legislação e recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral para tentar barrar a divulgação dessas publicações. Porém, ele elevou o tom ao acusar a CNBB de favorecer a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, provocando mal-estar com os bispos e comprometendo o diálogo com o eleitorado católico tradicional.
O episódio reacende o histórico de ataques políticos alinhados com setores da extrema direita que visam associar a Igreja Católica à esquerda e a agendas contrárias ao bolsonarismo, alimentando a polarização dentro dos espaços religiosos no Brasil.
O relatório da CBJP, que pode ser consultado no Instituto Humanitas Unisinos (leia mais), reúne documentos, vídeos e links que ajudam a compreender essa guerra simbólica travada no campo religioso, em conexão com a disputa política e ideológica recente no país.



