Durante décadas, a Amazônia foi considerada uma das grandes aliadas do planeta no combate ao aquecimento global. Suas árvores absorvem dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera por meio da fotossíntese, armazenando parte desse carbono na vegetação e no solo. Mas a capacidade da maior floresta tropical do mundo de prestar esse serviço ambiental está sendo comprometida pela destruição provocada pelo homem.

Um estudo publicado na quarta-feira, 21 de outubro, na revista científica Nature apresenta novas evidências da gravidade dessa transformação. Entre 2010 e 2024, a Amazônia liberou, em média, 1,17 bilhão de toneladas de CO₂ por ano a mais do que conseguiu absorver. O resultado coloca a floresta, no período analisado, na condição de fonte líquida de carbono para a atmosfera, em vez de funcionar como um reservatório capaz de compensar parte das emissões responsáveis pelo aquecimento global.

A principal conclusão não atribui o desequilíbrio apenas às mudanças naturais do clima. Segundo os cientistas, as atividades humanas, especialmente o desmatamento e as queimadas, são determinantes para explicar as emissões, enquanto as secas e o aumento das temperaturas agravam seus efeitos.

Uma conta ambiental que deixou de fechar

Os números revelam a dimensão do problema. As queimadas foram responsáveis pela emissão média estimada de aproximadamente 1,47 bilhão de toneladas de CO₂ por ano, enquanto a absorção líquida da floresta, descontado o fogo, ficou em torno de 300 milhões de toneladas anuais.

A diferença ajuda a explicar por que a Amazônia passou a apresentar um balanço positivo de emissões — isto é, passou a devolver à atmosfera mais dióxido de carbono do que retira dela.

O balanço de carbono da Amazônia entre 2010 e 2024: as emissões associadas ao fogo superaram a absorção líquida da floresta. Fonte: Gatti et al., Nature (2026).
O balanço de carbono da Amazônia entre 2010 e 2024: as emissões associadas ao fogo superaram a absorção líquida da floresta. Fonte: Gatti et al., Nature (2026).

O dado não significa que as árvores tenham parado de realizar fotossíntese. A floresta continua absorvendo enormes quantidades de carbono. O problema é que essa capacidade já não consegue compensar as emissões associadas à destruição da vegetação e aos demais processos que liberam o gás.

O trabalho também mostra que o problema não está restrito aos anos de secas excepcionais. Mesmo em períodos com condições climáticas relativamente favoráveis, a pressão humana foi suficiente para provocar um forte desequilíbrio.

Essa constatação é especialmente importante porque indica que a preservação da floresta depende de decisões concretas sobre o uso da terra, a prevenção de incêndios e a recuperação das áreas degradadas, e não apenas de fatores climáticos fora do controle imediato dos países amazônicos.

Quinze anos observando a floresta pelo céu

Para medir o balanço de carbono da Amazônia, a equipe utilizou pequenas aeronaves que coletaram amostras de ar em quatro regiões da floresta brasileira, entre 2010 e 2024.

O material foi analisado no Laboratório de Gases de Efeito Estufa do INPE, permitindo identificar concentrações de dióxido de carbono e monóxido de carbono, este último especialmente útil para investigar emissões relacionadas à combustão.

Os cientistas combinaram as medições atmosféricas com informações sobre desmatamento, focos de queimadas, precipitação, temperaturas e fenômenos oceânicos que influenciam o clima sul-americano.

Com esse conjunto de informações, foi possível comparar períodos caracterizados por diferentes condições ambientais e intensidades de intervenção humana.

Os pesquisadores dividiram os anos analisados em três grupos.

O primeiro reuniu anos relativamente chuvosos, entre 2011 e 2018, com menores índices de pressão humana. O segundo correspondeu ao período de 2019 a 2022, quando as condições climáticas eram menos severas, mas houve aumento expressivo do desmatamento e das queimadas. O terceiro agrupou anos marcados por calor e seca intensos: 2010, 2015, 2016, 2023 e 2024.

A comparação revelou que, no segundo grupo, as emissões líquidas médias chegaram a aproximadamente 1,58 bilhão de toneladas de CO₂ por ano, quase quatro vezes o valor registrado no primeiro. Nos anos de maior calor e seca, o saldo alcançou cerca de 1,8 bilhão de toneladas anuais.

A conclusão é preocupante: a destruição da vegetação pode desequilibrar o balanço de carbono mesmo quando a floresta não enfrenta as condições climáticas mais extremas.

A floresta está ficando mais quente e mais seca

Outro resultado importante diz respeito às mudanças nas próprias condições ambientais da Amazônia.

Com base na análise de uma série de 46 anos, os pesquisadores identificaram redução de aproximadamente 8% nas chuvas anuais e de 20% na precipitação durante o auge da estação seca, entre agosto e outubro, associada aos efeitos do desmatamento e da degradação florestal.

No mesmo intervalo, a temperatura média anual aumentou 1,13 °C, enquanto a elevação durante a estação seca chegou a 1,81 °C.

Essas mudanças comprometem o equilíbrio ecológico de uma floresta cuja sobrevivência depende da disponibilidade de umidade.

A Amazônia não é apenas beneficiada pelas chuvas. Ela também contribui para produzi-las.

Por meio da evapotranspiração, as árvores liberam vapor de água na atmosfera, ajudando a manter a umidade regional e a circulação de água. Quando grandes áreas são desmatadas, parte desse mecanismo natural é enfraquecida.

O resultado pode desencadear um círculo vicioso: menos árvores contribuem para a redução das chuvas; a diminuição da umidade favorece o aquecimento e os incêndios; e novos incêndios destroem ainda mais vegetação.

É um processo que ameaça tanto a biodiversidade amazônica quanto a capacidade da floresta de continuar regulando o clima.

O risco de uma transformação irreversível

Os resultados reforçam a preocupação dos cientistas com a possibilidade de a Amazônia se aproximar de um chamado ponto de não retorno.

A expressão é utilizada para descrever uma situação em que as alterações ambientais tornam o ecossistema incapaz de recuperar seu funcionamento anterior, mesmo que algumas das pressões que provocaram a degradação sejam reduzidas.

No caso amazônico, um dos cenários discutidos pela comunidade científica envolve a substituição de partes da floresta úmida por formações vegetais mais abertas e degradadas, com consequências para a biodiversidade, os estoques de carbono e o regime de chuvas.

É importante observar que o estudo publicado na Nature não demonstra que toda a Amazônia já tenha ultrapassado esse limite. O que ele revela é um enfraquecimento preocupante da função da floresta como absorvedora de carbono e a existência de mecanismos que podem agravar sua degradação.

Isso torna a prevenção ainda mais importante.

Por que isso também preocupa outras regiões do Brasil

A transformação da Amazônia não é um problema restrito aos estados da Região Norte.

A floresta participa da circulação de umidade sobre a América do Sul, influenciando processos atmosféricos que contribuem para a distribuição das chuvas em outras regiões do continente.

A redução da cobertura florestal pode afetar esse sistema e alterar condições que influenciam a agricultura, a disponibilidade de água e o funcionamento dos ecossistemas.

No Sul do Brasil, inclusive no Rio Grande do Sul, os regimes de precipitação dependem de uma interação complexa entre frentes frias, sistemas de baixa pressão, circulação atmosférica e transporte de umidade de regiões tropicais.

Por isso, alterações importantes na Amazônia representam uma preocupação para a estabilidade climática continental.

Entretanto, não seria cientificamente correto atribuir diretamente ao desmatamento amazônico uma enchente, uma estiagem ou qualquer evento meteorológico específico no território gaúcho apenas com base nesse estudo. Essas relações exigem pesquisas próprias de atribuição climática.

O alerta é mais amplo: a degradação da floresta acrescenta pressão sobre um sistema climático já afetado pelo aquecimento global.

O fator humano e a possibilidade de mudar o futuro

Uma das mensagens mais relevantes da pesquisa é que o agravamento das emissões amazônicas não constitui um destino inevitável.

Como o fogo e a destruição da vegetação desempenham papel central no desequilíbrio, ações de combate ao desmatamento, controle de queimadas e restauração florestal podem contribuir para reduzir emissões e preservar a capacidade de absorção de carbono.

Os cientistas também ressaltam a importância de investigar por que a própria floresta parece estar perdendo eficiência na retirada de CO₂ da atmosfera.

Ainda existem perguntas abertas. A redução da absorção decorre de menor atividade fotossintética? Está relacionada ao aumento da mortalidade das árvores? Ou à aceleração da decomposição da matéria orgânica em condições mais quentes e secas?

Para avançar nessa investigação, os pesquisadores vêm utilizando novas medições atmosféricas, incluindo o sulfeto de carbonila, substância que pode funcionar como indicador indireto da atividade fotossintética.

A continuidade desse monitoramento será fundamental para compreender se a degradação pode ser contida e em quais condições a floresta poderá recuperar sua capacidade de armazenar carbono.

Um alerta que vai além da Amazônia

A pesquisa brasileira publicada na Nature amplia o conhecimento científico sobre um dos mecanismos fundamentais de regulação do clima terrestre.

A Amazônia contém enormes quantidades de carbono armazenadas em árvores, raízes, solos e outras formas de matéria orgânica. Quando a floresta é destruída, parte desse carbono retorna à atmosfera, contribuindo para intensificar o efeito estufa.

Ao mesmo tempo, a perda de vegetação reduz a capacidade de retirar CO₂ do ar, criando uma combinação especialmente prejudicial: mais emissões e menos absorção.

Os resultados dos 15 anos de observações indicam que essa transformação já pode ser medida em escala regional.

A grande questão, agora, não é apenas compreender quanto carbono a floresta está perdendo, mas saber se haverá tempo e capacidade política para interromper o processo.

Preservar a Amazônia deixou de ser apenas uma questão de proteção da biodiversidade. É também uma condição decisiva para proteger funções climáticas das quais dependem o Brasil e o restante do planeta.


Fonte científica: Gatti, Luciana V., e colaboradores. Amazon carbon emissions driven by human actions amplified by droughts. Nature, publicado em 21 de outubro de 2026. DOI: 10.1038/s41586-026-11168-1.