Reflexões de um ecossocialista diante da conjuntura política brasileira
Em meio ao acirramento da disputa eleitoral brasileira de 2026, o sociólogo e pensador ecossocialista Michael Löwy lança um olhar crítico porém estratégico sobre o cenário que se apresenta no país. Em entrevista publicada originalmente no site Outras Palavras, Löwy analisa o significado do voto em Lula na corrida presidencial contra Flávio Bolsonaro, destacando que, apesar das limitações, ele representa um freio de emergência para conter o avanço do fascismo e do desmonte ambiental e social.
Frear a marcha do fascismo para ganhar tempo
Valendo-se do conceito benjaminiano do freio de emergência como metáfora da revolução, Löwy sustenta que a simples votação em Lula não equivale a revolução, mas permite que “o condutor da locomotiva seja alguém disposto a diminuir a velocidade deste trem suicida”, em referência ao bolsonarismo e suas tendências autoritárias e ecológicas destrutivas. O pensador ecossocialista alerta para a urgência de ‘ganhar tempo’ para que se abram espaços políticos para alternativas mais radicais e emancipatórias, como o ecossocialismo, que questionam profundamente o sistema capitalista.
Raízes e transformações do lulismo
Löwy lembra que o PT e movimentos sociais como o MST nasceram em diálogo com as comunidades eclesiais de base, ligadas ao cristianismo da libertação, e que essa influência permanece mais forte nos movimentos sociais do que no atual governo. Sobre o quarto mandato de Lula, ele ressalta que se trata de um governo de “modernismo progressista”, com reformas sociais importantes — como o combate à pobreza e avanços em direitos trabalhistas —, porém sem ruptura com o capitalismo e com concessões, por exemplo, na exploração petrolífera na Margem Equatorial, que contraria princípios ecológicos fundamentais.
O fascismo como falso messianismo e a narrativa da extrema direita
Sobre o fenômeno do bolsonarismo, Löwy o interpreta como um “falso messianismo” que encena um papel de salvador, mas está a serviço das elites dominantes e promove retrocessos na democracia, nos direitos sociais e ambientais. Ele ressalta a relação desse neofascismo brasileiro com outras forças globais afins, como Donald Trump, e descreve o avanço da extrema direita nas Américas e outras regiões como uma onda mundial, que se manifesta via figuras autoritárias e que manipulam símbolos religiosos e culturais para legitimar seu poder.
Democracia em risco: anistia, memória e o futuro da luta
Löwy alerta para os perigos de propostas de anistia aos golpistas de 2022 e à própria Jair Bolsonaro, classificando tais medidas como “ataques diretos à democracia brasileira”. Ele lembra o pesado legado da ditadura militar e da tortura, citando vítimas como frei Tito e o jornalista Luiz Eduardo Merlino, ressaltando que permitir impunidade para agentes desse regime sinaliza que “nem os mortos estarão em segurança” se o fascismo vencer. Portanto, o sociólogo enfatiza a importância da resistência e da vitória eleitoral como uma forma de evitar a continuidade do retrocesso autoritário.



