Em setembro de 2026, a crescente crise econômica no Irã tem ampliado suas consequências para além da alta dos gastos domésticos, afetando diretamente indicadores vitais como produção e emprego. Segundo estatísticas oficiais divulgadas durante o mês, o país enfrentava uma inflação persistente, queda na produção industrial e retração no consumo das famílias. Esses fatores, combinados com a perda de poder aquisitivo, agravavam a situação dos trabalhadores iranianos.
Impacto do aumento do preço da gasolina e da insegurança econômica
Um aumento de 100% no preço da gasolina elevou ainda mais os custos para deslocamento e o custo de vida em geral, prejudicando especialmente aqueles que dependem do transporte para atividades extras de trabalho. Além disso, a tensão militar e a ameaça constante de guerra continuavam a afetar a economia e a rotina da população. Algumas unidades produtivas ainda enfrentavam as consequências do conflito recente, como dificuldades para obter matéria-prima, restrições produtivas e incertezas sobre a disponibilidade de mão de obra. Como resultado, muitos trabalhadores encontravam dificuldade para retomar condições normais de vida.
Recorde na mobilização trabalhista e diversidade nas reivindicações
Entre os dias 1º e 30 de setembro, um total de 73 mobilizações foram registradas em pelo menos 21 cidades, incluindo Ahvaz, Teerã, Isfahan, Shoush, Rasht e Kermanshah. Apesar do ambiente de insegurança e tensões regionais, trabalhadores dos mais variados setores — aposentados da seguridade social e telecomunicações, operários de fábricas, funcionários do setor petrolífero e de gás, enfermeiros, ferroviários e jovens desempregados — se mobilizaram principalmente por meio de concentrações pacíficas. Apenas uma greve e uma manifestação formal foram identificadas.
Essas mobilizações refletem reivindicações que vêm sendo apresentadas reiteradamente nos meses anteriores, sem que tenham sido adequadamente atendidas. Segundo relatos, a maioria das ações realizadas em setembro não receberam qualquer tipo de resposta por parte das autoridades.
Inflação galopante e perda do poder de compra no centro das preocupações
O Centro Estatístico do Irã informou que a inflação acumulada em 12 meses atingiu 89% em agosto de 2026, sendo que os preços de alimentos e bebidas subiram 127,5%. A pressão inflacionária afetou mais intensamente as camadas de renda mais baixa. No segundo decil de renda, a inflação anual atingiu 78,3%, em comparação com 67,6% no décimo decil.
Enquanto o salário mínimo mensal com benefícios incluídos permanecia abaixo de 90 euros, especialistas sindicais apontavam que uma família iraniana precisa de aproximadamente 350 euros mensais para cobrir suas despesas básicas. Assim, o afastamento entre salários e custo de vida tornou-se central nas reivindicações trabalhistas e dos aposentados, que protestam contra atrasos nos pagamentos de pensões e contra seu valor real insuficiente para compensar a inflação.
Mobilizações frequentes dos aposentados
Os aposentados dos regimes geral, das telecomunicações e da siderurgia realizaram vários protestos frente às instituições responsáveis, incluindo ações fora de Teerã, em províncias como Hormozgan, Kermanshah e Curdistão. Suas demandas não se restringem apenas a valores retroativos, mas abrangem também harmonização de pensões, aplicação de regulamentações específicas, cobertura médica, benefícios sociais e reembolso de despesas médicas.
Condições precárias, salários atrasados e ameaças ao emprego
De modo geral, os trabalhadores ainda em atividade reivindicaram o pagamento de salários atrasados e expressaram preocupação com a segurança de seus empregos. Na siderúrgica Arin Foolad, em Bouin-Zahra, por exemplo, a produção estava praticamente paralisada há cinco meses devido a restrições de eletricidade, período durante o qual os trabalhadores não receberam salário. As preocupações se estendem para preservação dos postos de trabalho e futuro da fábrica.
Em Shadegan, cerca de 100 trabalhadores contratados para projeto siderúrgico perderam seus empregos ao término de suas atividades. A guerra, a insegurança e o quadro recessivo agravaram as demissões, atingindo diversos setores e afetando uma parcela significativa da força de trabalho.
Outros relatos apontam para a incerteza profissional de aproximadamente 700 empregados da mineradora P.V. Pol Jonoube e de trabalhadores da empresa de engenharia Mahour Gostar Nasr, afetados há mais de 50 dias. No setor têxtil de Borujerd, cerca de 600 funcionários estavam afastados desde o início do ano, ainda sem perspectivas claras de retorno, e salários de julho e agosto não foram pagos.
Na província de Hormozgan, o secretário executivo da Casa dos Trabalhadores (entidade ligada ao regime islâmico) reportou demissões em algumas unidades e estimou o desemprego em torno de 20 mil pessoas, muitas das quais migraram para atividades informais e precárias.
Na Universidade de Ciências Médicas de Iranshahr, profissionais contratados por prestadoras acumularam atrasos salariais de julho e agosto, perderam benefícios sociais e sofreram condições laborais ásperas. Agentes responsáveis pela segurança das ferrovias locais estavam sem pagamento há cerca de cinco meses, enfrentando também ausência de infraestrutura básica e direitos.
Jovens desempregados ampliam a contestação
Outro destaque das mobilizações foi a crescente participação de jovens buscando emprego. Na região do Khouzestan, eles protestaram contra a falta de contratações e o descumprimento de promessas para priorizar mão de obra local. Em complexos açucareiros de Morân e Amishieh, a principal reivindicação girava em torno do acesso a vagas de trabalho, alegando que o complexo foi construído em suas terras e seria justo que as oportunidades fossem reservadas às comunidades locais.
Os protestos se repetiram ao longo do mês, chegando a durar mais de uma semana em alguns locais, mesmo diante de ameaças e repressão por forças de segurança. Em 1º de outubro, jovens bloquearam a entrada da empresa agroindustrial açucareira Daable Khazai, exigindo resposta sobre suas solicitações de emprego, o que indica uma radicalização da mobilização para além das reivindicações por reajustes salariais.
Setor petrolífero e de gás também evidenciam desigualdades
Manifestações ocorreram também nas áreas de extração de petróleo e gás, envolvendo operários, equipes de segurança e trabalhadores dos campos petrolíferos. Elas protestaram contra condições laborais precárias, desigualdades salariais, limitações de pagamentos e tratamento diferenciado entre funcionários permanentes e terceirizados. Ao contrário das mobilizações de aposentados, essas ações ocorreram próximas às unidades produtivas.
Entre as demandas, estão o fim das restrições salariais, aplicação correta das tabelas de classificação de cargos, pagamento de adicionais para condições climáticas adversas e o combate à discriminação entre categorias de trabalhadores.
Pressão comum por pagamento de atrasados e perspectiva salarial
As reivindicações de pagamentos atrasados — incluindo salários, horas extras, benefícios sociais, décimo terceiro, contribuições de seguridade social e cobertura médica — foram um denominador comum entre as mobilizações. Em muitos casos, atrasos se prolongaram por meses, transformando o problema em uma ameaça à subsistência dos trabalhadores.
Apenas uma greve foi formalmente registrada em setembro: na Indústria Nacional de Aço do Irã, em Ahvaz. A paralisação provocou a interrupção da produção de barras de aço, com os trabalhadores exigindo a regularização salarial, melhorias econômicas e sociais, além de gestão eficiente e retomada da produção. Após negociações, o novo diretor geral prometeu receber e quitar valores em dois dias, garantir pagamentos regulares e analisar reclamações dos aposentados, o que levou os trabalhadores a suspenderem a greve, mantendo vigilância sobre o cumprimento dos acordos.
Discussões e mobilização por reajuste salarial
No âmbito jurídico, o Conselho Superior do Trabalho debateu a aplicação do artigo 10 da resolução salarial para 2026 e a revisão das parcelas remuneratórias no segundo semestre. Foi formada uma comissão para analisar custo de vida e níveis salariais. Ainda que houve consenso sobre a necessidade de aumento, nenhuma decisão definitiva sobre valores foi tomada, adiando o tema para reuniões futuras.
Complementarmente, foi lançada uma campanha em prol da valorização salarial para o segundo semestre, que reuniu mais de 15 mil assinaturas e segue em andamento até que uma resposta oficial seja declarada.
Vias de mobilização, convergência de demandas e desafios futuros
As mobilizações refletem diversas facetas do mercado de trabalho iraniano. Aposentados buscam resolver suas reivindicações acumuladas relativas a pensões, assistência médica e benefícios. Trabalhadores atuais enfrentam atrasos salariais, paralisação de unidades, restrições energéticas, demissões e incerteza contínua. Por sua vez, jovens desempregados pressionam por criação de oportunidades.
A predominância de concentrações pacíficas indica uma manutenção dos canais tradicionais de protesto, mesmo diante da falta de respostas e da persistência das reivindicações. Notadamente, a linha entre demandas por salário e por estabilidade de emprego tem se esboroado, com o agravamento econômico ampliando a pressão por melhorias salariais e o contexto recessivo ameaçando postos de trabalho.
Para monitorar a evolução das lutas trabalhistas, será necessário observar não apenas o número de atos, mas a frequência dos atos repetidos, o tempo de espera por resposta, o amadurecimento de paralisações produtivas, o status profissional dos envolvidos e a inclusão progressiva de novos grupos, especialmente jovens buscando trabalho. Setembro de 2026 já evidenciou essas dinâmicas, com 73 mobilizações catalogadas em dados públicos — embora esse total possa ser subestimado.
Esta reportagem foi elaborada com base nas informações detalhadas no artigo “Iran : La crise du coût de la vie frappe les travailleur·ses et les jeunes en quête d’emploi”, publicado em 25 de setembro de 2026 pelo site davtalab e traduzido pelo jornal Échos d’Iran, mantido sob responsabilidade do Bureau Exécutif da IVe Internationale.



