Movimento estudantil conquista maioria absoluta no Parlamento da Sérvia

Em uma eleição histórica realizada em 2026, a chamada Lista Estudantil, formada originalmente em assembleias universitárias, obteve uma vitória estrondosa na Sérvia, conquistando cerca de 140 das 250 cadeiras do Parlamento. Essa vitória pôs fim ao domínio autoritário de Aleksandar Vučić, que governava o país há 14 anos com seu Partido Progressista Sérvio (SNS) e que esperava assumir o cargo de primeiro-ministro com facilidade. O movimento nasceu após protestos desencadeados por um desabamento na cobertura de uma estação ferroviária em Novi Sad, que matou 16 pessoas em novembro de 2024, expondo negligência e corrupção do governo de Vučić.

Protestos e mobilizações estudantis como motor da mudança

Desde 2024, estudantes lideraram uma mobilização incansável que cresceu para além dos muros universitários, englobando professores, funcionários, trabalhadores e cidadãos comuns, todos indignados com um sistema político marcado pelo clientelismo e falta de responsabilização. O movimento contestou não só os abusos individuais do governo, mas principalmente a ausência do poder real das pessoas sobre as instituições políticas. Assembléias universitárias coletivas e participação democrática direta marcaram a independência do movimento em relação às forças tradicionais da oposição.

A participação eleitoral e a composição da nova lista parlamentar

Decidindo não se limitar à pressão nas ruas, a Lista Estudantil decidiu concorrer às eleições com uma lista formada por acadêmicos, médicos, ativistas e cidadãos não alinhados politicamente, incluindo um ex-governador do Banco Nacional e um ex-jogador profissional de basquete. Nenhum candidato era estudante atualmente. A seleção baseou-se em assembleias universitárias, garantindo um processo coletivo e democrático de escolha dos representantes. Ainda assim, o programa político da Lista é heterogêneo e suscetível a pressões internas e externas, diante dos desafios de administrar o Estado.

Programa socioambiental e luta contra o neoliberalismo

O programa da Lista incluiu demandas que vão além da responsabilização institucional, com propostas como limitar contratos temporários a 12 meses, reduzir o preço de medicamentos essenciais, restaurar clínicas em áreas rurais e oferecer livros didáticos gratuitos para estudantes do ensino fundamental e médio. Essa agenda aponta para uma tentativa de enfrentar diretamente as consequências sociais do sistema neoliberal vigente na Europa, que tem promovido austeridade, precarização dos serviços públicos e insegurança para trabalhadores e estudantes.

Desafios para o novo governo e risco de distanciamento social

Após a vitória, há riscos claros para a Lista Estudantil: o afastamento dos movimentos sociais que a elegeram, à medida que os representantes busquem negociar com elites empresariais e políticas tradicionais. Além disso, os magnatas e redes de poder que sustentavam Vučić provavelmente tentarão proteger seus interesses, pressionando de forma legítima ou ilegítima o novo governo. O movimento está ciente de que a participação democrática deve se estender para além das urnas, com mecanismos permanentes de controle social e mobilizações contínuas.

Pressões geopolíticas e divisão interna sobre alinhamento externo

Internacionalmente, a União Europeia (UE) recebeu favoravelmente a vitória da Lista Estudantil, esperançosa de diminuir os laços entre Sérvia e Rússia. No entanto, a UE possui interesses estratégicos próprios, buscando fortalecer sua influência nos Bálcãs e garantir o alinhamento geopolítico da Sérvia. O novo governo deve enfrentar pressões para impor sanções à Rússia, o que divide os membros da Lista e amplia tensões internas. A experiência do governo Vučić mostrou que acordos estratégicos com potências estrangeiras, como a exploração do lítio com a Alemanha, ocorrem mesmo diante de denúncias de corrupção e protestos sociais.

A aposta no não alinhamento e na solidariedade regional

Especialistas e lideranças do movimento estudantil defendem que o melhor caminho para a Sérvia é o não alinhamento, permitindo relações igualitárias com diversos países sem subordinação a grandes potências. Essa posição implica cooperar internacionalmente com liberdade crítica e defender políticas públicas no interesse da população, resistindo a pressões e interferências externas em favor de interesses geopolíticos que não refletem as demandas sociais.

Contexto mais amplo: protestos em toda a Europa e potencial para união nos Bálcãs

O movimento estudantil sérvio integra um cenário maior de protestos em vários países europeus, como França, Bélgica, Itália, Espanha, Portugal e Albânia, onde jovens e trabalhadores confrontam a austeridade, precarização dos serviços públicos e desigualdades. A mobilização estudantil na Albânia, que também luta contra corrupção e por melhores condições na educação, cria oportunidades para superar disputas nacionalistas históricas nos Bálcãs, promovendo solidariedade entre os povos da região. Fruto dessa experiência, o novo governo pode fortalecer debates e intercâmbios regionais para estabelecer relações baseadas em interesses comuns e resistência às divisões promovidas por potências externas e corporações multinacionais.

Conclusão: vitória histórica põe fim ao regime Vučić, mas o desafio da transformação permanece

A derrota do presidente Aleksandar Vučić é um marco político celebrado por muitos. No entanto, o artigo do jornalista Dragan Plavsic, publicado pelo Outras Palavras em 27 de outubro de 2026, destaca que a tarefa do movimento estudantil vai muito além da conquista eleitoral: trata-se de construir uma democracia participativa em que recursos públicos e decisões políticas sirvam à maioria da população. Para tal, é imprescindível manter-se enraizado nas mobilizações sociais, ampliar a organização independente dos cidadãos e estreitar a solidariedade entre movimentos estudantis e trabalhadores, na Sérvia e além das fronteiras nacionais. Somente assim a vitória se tornará um ponto de partida para mudanças efetivas que enfrentem desigualdades e a lógica neoliberal.