No dia 27 de outubro de 2026, Israel realizou eleições parlamentares para o Knesset, em um contexto político marcado pela necropolítica e conflitos intensos. O pleito envolveu eleitores judeus e árabes com cidadania israelense e foi o primeiro desde a formação do governo mais reacionário da história do Estado israelense em 2022, liderado pela coalizão de extrema-direita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que inclui os partidos neonazistas de Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich e grupos ultraortodoxos religiosos.

Resultados iniciais e panorama pós-eleitoral

As pesquisas indicaram um empate entre o bloco governista de Netanyahu e a aliança de oposição comandada pelo ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, Gadi Eisenkot, um general de linha dura. A conclusão formal dos resultados depende de dias e as negociações para composição do próximo governo podem durar semanas.

Contexto dos conflitos armados e violência política

Essas eleições ocorreram após a ofensiva do Hamas em 7 de outubro de 2023 que desencadeou uma guerra genocida do exército israelense contra Gaza, com a destruição em grande escala da população e infraestrutura local. Simultaneamente, a agressão violenta de colonos sionistas contra palestinos na Cisjordânia exacerbou uma campanha de limpeza étnica, que remonta a episódios anteriores como a Nakba de 1948 e recentes operações em Gaza.

Polarização social e ausência do debate palestino nas eleições

O pleito se desenrolou em meio a tensão crescente dentro da sociedade israelense, que já vivia conflitos entre apoiadores do governo e da oposição, especialmente em torno de questões judiciais. O ataque do Hamas serviu para unificar amplos setores da população judaica israelense em um ódio racista dirigido contra palestinos, incluindo os cidadãos árabes dentro de Israel. Contudo, a pauta palestina praticamente ausentou-se do debate entre Netanyahu e Eisenkot, limitando-se a acusações recíprocas sobre servirem ao Hamas. Todos os partidos sionistas, da extrema direita até setores da “esquerda” sionista, rejeitaram a ideia de um Estado palestino, ou, na melhor hipótese, condicionaram isso a um controle severo que tornaria os territórios ainda menos soberanos que antigos bantustões sul-africanos do apartheid.

Votação dos partidos árabes e limitações da oposição judaica progressista

Uma parcela aumentada do eleitorado judeu optou pelos partidos árabes, como a Lista Unida e a Lista Conjunta, esses últimos copresididos por líderes islâmicos e judeus sionistas. A votação destes grupos constitui um sinal de descontentamento, mas também evidencia a incapacidade da esquerda judaica em articular uma oposição que rejeite o conceito de “Estado judeu” e apoie um “Estado para todos os cidadãos” que inclua direitos palestinos, retirada do exército das áreas ocupadas em 1967 e reconhecimento do direito de retorno ou compensação para refugiados palestinos.

Condução política da Lista Conjunta e alianças com a oposição sionista

Mansour Abbas, líder da Lista Conjunta, tenta estabelecer pactos com a oposição sionista, sobretudo com Eisenkot, mesmo que este negue alianças diretas com partidos árabes. Abbas tenta condições como a declaração do Hamas como organização terrorista, uma posição complexa visto seu vínculo com a mesma Irmandade Muçulmana de origem do Hamas. Tentou também inserir judeus sionistas na sua composição para facilitar acordos políticos.

A Lista Conjunta manifestou disposição em apoiar a oposição a Netanyahu nas votações parlamentares, desde que suas demandas por melhorias nas condições de vida dos palestinos em Israel e apoio a um Estado palestino sejam atendidas. Entretanto, o consenso reacionário entre os dois maiores blocos sionistas torna tal hipótese inviável, o que indica que não deve haver concessões relevantes à causa palestina no novo governo.

Perspectivas sob um eventual governo Eisenkot

Um governo liderado por Eisenkot manteria a linha dura contra o Hamas e o controle sobre Gaza, além de uma postura agressiva em relação ao Irã e ao Hezbollah, em parceria com os Estados Unidos. Poderia moderar a atuação dos colonos extremistas, o que incomoda até Netanyahu, preocupado com a má repercussão internacional. Ainda assim, o objetivo desse grupo é consolidar a anexação da maior parte dos territórios ocupados e implementar planos mínimos, possivelmente aqueles alinhados ao “plano de paz” de Donald Trump.

Possível reconfiguração política

Se nenhum bloco conseguir formar maioria, não está descartada a ruptura da aliança atual de Netanyahu com seus aliados neonazistas, para negociar um governo de unidade nacional com a oposição, algo similar ao que ocorreu recentemente. Porém, para isso, ele deverá primeiro desgarrar os setores mais à direita do bloco de oposição que poderiam apoiar sua coalizão extrema-direitista atual.

Assim, as eleições refletem uma necropolítica institucional, centrada na exclusão e extermínio de palestinos, com um consenso sionista reacionário que negligencia soluções políticas para o conflito, enquanto parte da população busca alternativas limitadas nos partidos árabes, estes submetidos ao mesmo sistema colonial.

Fonte: análise de Gilbert Achcar para o site Outras Palavras, publicada em 28/10/2026.