As eleições parlamentares realizadas na Sérvia em 2026 resultaram em um evento histórico que marca uma mudança profunda na ordem política do país. A Lista dos Estudantes, movimento originado em manifestações estudantis, conquistou uma vitória avassaladora, obtendo 140 dos 250 assentos no parlamento, garantindo assim maioria absoluta. Em contrapartida, o Partido Progressista Sérvio (SNS), liderado por Aleksandar Vučić e principal força política no país desde 2012, conquistou 104 mandatos e passará pela primeira vez em quase 14 anos para a oposição.

Fim do monopólio político do SNS e Aleksandar Vučić

Desde sua ascensão ao poder em 2012, o SNS dominou o cenário político sérvio, controlando o executivo, majorias parlamentares confortáveis, políticas locais e estabelecendo uma rede extensa de aliados políticos e institucionais. Esse controle rígido moldou os limites da competição política e uma forte personalização do poder que se refletiu na concentração de autoridade e no controle sobre instituições e meios de comunicação. Tentativas dos partidos tradicionais da oposição para romper esse domínio foram infrutíferas durante mais de uma década.

O resultado das eleições de 2026, portanto, não indica apenas uma mudança de governo, mas o colapso dessa estrutura política. De forma significativa, o SNS não foi derrotado por um grupo político tradicional, e sim por um movimento estudantil.

A emergência da Lista dos Estudantes como força política dominante

Originada de meses de protestos sociais, a Lista dos Estudantes converteu o descontentamento jovem em força eleitoral legítima, quebrando o monopólio até então indivisível de Vučić. Ao conquistar maioria parlamentar, o movimento conseguiu o que a oposição tradicional não logra há anos: desafiar frontalmente e derrotar o modelo político que representa governança centralizada, falta de responsabilização e polarização social.

O voto majoritário não foi apenas um apoio a um programa ou candidatos específicos, mas uma rejeição explícita da política personalizada e do controle absoluto exercido pelo SNS sobre o país. A Lista dos Estudantes agregou diversas demandas sociais — desde maior transparência institucional e fortalecimento do Estado de Direito até uma ampla mudança política.

Desfragmentação do sistema partidário tradicional e impacto entre as minorias étnicas

Outro aspecto dramático das eleições foi o desaparecimento do cenário partidário tradicional, evidenciado pelo fato de nenhum partido pequeno conseguir ultrapassar o limiar eleitoral de 3%. Assim, o parlamento ficou praticamente dividido entre dois protagonistas: a Lista dos Estudantes e o SNS.

Além disso, a tradicional aliança política entre o SNS e partidos de minorias étnicas, que vigorava há quase 15 anos, foi profundamente abalada. Por exemplo, a Aliança dos Húngaros da Vojvodina (SVM) reduziu sua representação, possivelmente devido a um apoio demonstrado a favor da Lista dos Estudantes. Comunidades bosníacas também indicaram mudanças eleitorais, com apenas dois representantes eleitos, sendo um aliado do SNS e outro da oposição tradicional. Na comunidade albanesa verificou-se ainda a eleição de dois membros de uma coligação que nunca apoiou Vučić, sinalizando uma reconfiguração do mapa político entre as minorias.

Repercussões internacionais e reações do entorno europeu

A vitória da Lista dos Estudantes chegou a ganhar celebração em círculos europeus. Altas autoridades da União Europeia, incluindo António Costa, presidente do Conselho Europeu, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e Marta Kos, comissária para Alargamento, manifestaram felicitações. Péter Magyar, primeiro-ministro da Hungria, também parabenizou os vencedores, um gesto relevante considerando a posição tradicional da Hungria como aliada política de Vučić na UE.

Essas manifestações indicam que a mudança no governo sérvio tem relevância para o relacionamento entre a Sérvia e a União Europeia, podendo abrir uma nova etapa nas negociações e políticas bilaterais. O caráter símbolo da mudança foi reforçado pelo fato de Viktor Orbán, líder húngaro derrotado recentemente em seu país, ver seu aliado lógico perder poder em Belgrado.

Primeiras declarações de Vučić e avaliações das consequências

Após a derrota, Aleksandar Vučić mencionou a expectativa de que o novo governo impusesse sanções à Rússia, um afastamento importante da política externa tradicional da Sérvia, que até então mantinha relações estreitas com Moscou enquanto buscava aproximação com a UE.

Vučić também apontou para preocupações econômicas, alertando que a mudança política poderia causar incerteza entre investidores estrangeiros. Durante seu governo, a atração do investimento foi pilar da política econômica e a transição poderia gerar dúvidas sobre estabilidade económica, política externa e regulatória.

Desafios da Lista dos Estudantes no exercício do poder

Para os líderes associados à Lista dos Estudantes, a vitória eleitoral representa um momento histórico. Dejan Šoškić, professor de economia e figura chave do movimento, expressou orgulho na chegada a um ponto que possibilita a construção de uma sociedade democrática e livre na Sérvia. Radomir Saičić, acadêmico e candidato da lista, declarou que apesar da vitória, o trabalho para reconstruir o país e as instituições começaria imediatamente.

No entanto, a transição de movimento de protesto a governo funcional é um desafio complexo. A Lista dos Estudantes precisará estruturar um governo, elaborar políticas para áreas como economia, integração europeia, direitos sociais e Estado de direito. Este processo aponta para uma fase exigente além do momento eleitoral.

Quanto ao SNS, além de perder o governo, a organização enfrentará o primeiro teste real de sua força política na oposição, sem o controle do aparato estatal e sem o comando direto de Vučić no executivo.

Um momento histórico e de transformação política na Sérvia

Muito além de uma mudança simples de governo, a eleição de 2026 representa uma ruptura histórica no sistema político sérvio. A inesperada ascensão de um movimento que emergiu das mobilizações sociais estudantis para governar o país desafia o estabelecimento tradicional e redesenha o mapa político. A oposição tradicional praticamente desapareceu do parlamento, os partidos minoritários aliados ao SNS perderam espaço, e o SNS deixou o poder após quase 14 anos ininterruptos. Resta aguardar como essas transformações repercutirão internamente e na cena internacional.

Fonte: Euronews, “Sérvia: terramoto político põe fim à era Vučić e leva Lista dos Estudantes ao poder”, 26 de outubro de 2026 (https://pt.euronews.com/2026/10/26/servia-terramoto-politico-poe-fim-a-era-vucic-e-leva-lista-dos-estudantes-ao-poder).