O governo da primeira-ministra Takaichi, no Japão, tem se destacado por sua estratégia de rearmamento acelerado e tentativa de revisão da Constituição, inseridas em um contexto internacional marcado pelo autoritarismo crescente e crises econômicas e climáticas. Este artigo retoma, de forma detalhada e fiel às fontes, especialmente uma análise publicada em 24 de agosto de 2026 no semanário Kakehashi da Quarta Internacional, os principais aspectos políticos, militares, econômicos e sociais ligados a esse governo e ao cenário geopolítico da região da Ásia Oriental.

Contexto internacional e relações imperialistas na Ásia Oriental

Entre maio e junho de 2026, o presidente chinês Xi Jinping realizou uma série de cúpulas com importantes líderes globais: o presidente dos EUA, Donald Trump; o presidente russo, Vladimir Poutine; e o secretário-geral norte-coreano Kim Jong-un. Essas reuniões refletem mudanças nas relações de poder entre as potências após eventos no Irã e no Oriente Médio e influenciam diretamente a situação na Ásia Oriental.

No encontro sino-americano em 14 e 15 de maio, apesar do cenário de rivalidade entre EUA e China, houve uma trégua temporária em nome da “estabilidade estratégica”. Pressionado pelo clima pré-eleitoral nos EUA, Trump buscou um acordo para encerrar a guerra no Irã, o que levou a concessões quanto à política de Taiwan. Xi Jinping exigiu mudanças mais firmes da parte americana, como a passagem da posição oficial para “os EUA se opõem à independência de Taiwan” e a suspensão da venda de armas para a ilha.

Já o encontro sino-russo mostrou uma clara dependência da Rússia para com a China após a invasão da Ucrânia, com a economia russa fortemente vinculada ao comércio com o gigante asiático, que possui papel irremplazável para a Rússia, enquanto para a China a Rússia é substituível. Porém, o diálogo não produziu avanços concretos para o país europeu.

Em junho, a reunião entre Xi Jinping e Kim Jong-un indicou uma atitude conciliatória da China com a Coreia do Norte, cuja economia tem crescido impulsionada pela guerra na Ucrânia. A Coreia do Norte tem fornecido apoio militar à Rússia em troca de suprimentos críticos e receitas com a venda de armas, fortalecendo sua negociação com a China. Notadamente, o presidente chinês não mencionou a desnuclearização da península coreana, sinalizando um reconhecimento tácito da Norcoreia como potência nuclear.

Rearmamento e reestruturação militar no Japão

Após vitória decisiva nas eleições legislativas, a primeira-ministra Takaichi priorizou projetos que incluem uma política econômica fiscalmente ativa, fortalecimento das capacidades de defesa e reformulação de documentos estratégicos, como a possibilidade de revisão dos “três princípios antinucleares”. Entre suas medidas está a criação de um Escritório Nacional de Inteligência e leis voltadas à antiespionagem, além da legislação para controlar imigrantes estrangeiros de modo mais rígido e mudanças na lei da Casa Imperial e da Constituição.

Um destaque foi a revogação das “cinco categorias de exportação de armamentos”, abrindo caminho para exportar armas e fortalecer alianças militares na Ásia Oriental, além de fomentar a indústria bélica para a economia.

Nas regiões de Okinawa e nas ilhas Nansei, a instalação de bases das Forças de Autodefesa (SDF, na sigla em inglês), com implantação de mísseis e unidades de guerra eletrônica, avança rapidamente. Baseou-se ainda na construção de depósitos para munição, implantação de mísseis de longo alcance e utilização de portos e aeroportos civis para fins militares.

Em 2026, exercícios militares conjuntos com os EUA, como o “Resolute Dragon” concentrado em Okinawa e Kyushu, e outros com as Filipinas, mostraram a ampliação das capacidades de coordenação e resposta conjunta, engajando milhares de soldados de vários países e reforçando alianças militares regionais.

Governança e tendências autoritárias no governo Takaichi

Especialistas analisam que o governo Takaichi, alinhado com a tendência mundial de regimes autoritários, pode se tornar um “regime autoritário eleito”. Elementos que indicam essa trajetória incluem a centralização do poder, criou-se o crime de “ultraje à bandeira nacional”, endureceram-se controles sobre estrangeiros e tramita-se uma legislação anti-espionagem. Contudo, ainda é preciso acompanhar sua evolução para confirmar um autoritarismo pleno.

Politicamente, o governo tem apoio elevado, aproveitando-se da desorganização da oposição centrista e marginalização da esquerda parlamentar. No entanto, os partidos centristas enfrentam crises e dissoluções, enquanto partidos de esquerda como o Partido Social Democrata perderam representação e enfrentam instabilidades internas.

Pesquisas de opinião de julho de 2026 indicaram queda no apoio popular, especialmente entre jovens e mulheres. Isso se deve ao afastamento das expectativas nacionalistas, erros políticos do governo e divisões internas no campo conservador. A imprensa tradicional, como o Nikkei e o Yomiuri, expressa críticas severas ao governo no Parlamento, sinalizando desconforto com seu rumo.

Política econômica: bolha da inteligência artificial e agravamento das desigualdades

No âmbito econômico, Takaichi aposta em uma política fiscal expansionista, focando investimentos na inteligência artificial (IA) e na indústria bélica como motores de crescimento. Todavia, o governo evita medidas para conter a inflação, optando por subsídios para energia e combustíveis.

O mercado financeiro japonês experimentou forte valorização especulativa, com o índice Nikkei ultrapassando temporariamente 70 mil ienes, reflexo da bolha em setores de IA e semicondutores. Essa valorização concentrou riqueza nos grandes investidores, sem beneficiar a maioria da população.

Especialistas alertam que a bolha da IA é insustentável: inovações tecnológicas que reduzam a demanda por data centers ou fracassos comerciais podem causar uma queda repentina. De fato, após anúncio de IA generativa chinesa, ações ligadas caíram fortemente, inclusive da Kioxia, que perdeu mais da metade de seu valor, refletindo recuo de mais de 10 mil ienes do índice Nikkei em cerca de um mês.

O choque inflacionário, agravado por sanções e bloqueios no Oriente Médio afetando o petróleo, provocou elevação dos preços e pressão sobre o iene, que chegou a ultrapassar 160 ienes por dólar. O Banco do Japão elevou a taxa básica de juros para cerca de 1%, reconhecendo o risco inflacionário. Intervenções coordenadas momentaneamente fortaleceram o iene, mas sem garantir estabilidade duradoura.

Isso aumentou lucros recordes das grandes corporações, enquanto trabalhadores, especialmente mulheres, jovens e idosos, enfrentam maiores dificuldades. O enfraquecimento do poder de compra e a pressão inflacionária aumentam a pobreza.

A principal medida anti-inflacionária, a redução do imposto sobre consumo para alimentos a 1% entre abril de 2027 e abril de 2029, foi criticada pelo Nikkei como medida insuficiente e arriscada. O jornal destacou preocupações sobre a sustentabilidade fiscal, efeitos limitados contra a inflação e riscos para o poder de compra da população.

Alternativamente, o artigo sugere convergência da luta por justiça social, como a suspensão total do imposto sobre consumo acompanhada da taxação dos mais ricos e aumento significativo do salário mínimo no país, proposta rejeitada pelo governo que pretende manter políticas restritivas salariais.

Movimentos sociais contra rearmamento e pela defesa dos direitos trabalhistas

As políticas de Takaichi quanto ao rearmamento e à revisão constitucional têm gerado intensas mobilizações, as maiores desde 2015, principalmente diante da proposta de mudança do artigo 9º da Constituição, que pacifica o Japão.

Entre as iniciativas destacam-se ações de protesto diante da Dieta (parlamento japonês), organizadas por jovens e mulheres, expandindo-se nacionalmente. Manifestos mensais “NO WAR! Não alterem a Constituição!” e outras ações coordenadas mobilizaram milhares, promovendo resistência à militarização.

As lutas locais, notadamente em Okinawa e nas ilhas Nansei, têm especial importância devido à rápida militarização e construção de bases militares. O movimento procura se articular com reivindicações trabalhistas contra a precarização, inflação e degradação das condições de vida.

São defendidas reivindicações como aumento uniforme do salário mínimo para 1.500 ienes por hora, indexação de salários à inflação, reajustes salariais significativos e fim da flexibilização das leis trabalhistas, aproximando o combate pela paz, justiça social e sustentabilidade ecológica em um eixo comum contra as múltiplas crises do sistema capitalista.

Referências e nota final

Este texto baseia-se integralmente no artigo “S’opposer au réarmement et à la révision constitutionnelle du gouvernement Takaichi”, publicado no Inprecor, revista vinculada à Quarta Internacional. Ele expande a compreensão do contexto global e local do governo Takaichi, considerando as dinâmicas de poder imperialistas, as crises econômicas e sociais e os movimentos de resistência em curso.