Investigação do Intercept Brasil revela pagamentos à Elytron, documentos sobre operações clandestinas de influência política e conexões internacionais. Não há provas de que a tecnologia tenha sido utilizada pela campanha presidencial.

A campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) pagou R$ 600 mil à Elytron, empresa de cibersegurança que tentou comercializar nos Estados Unidos um sistema de inteligência artificial voltado à manipulação política e eleitoral. O próprio PL também declarou um pagamento de R$ 131,9 mil à companhia.

A revelação faz parte de uma investigação publicada nesta sexta-feira, 16 de outubro, pelo Intercept Brasil, assinada pelos jornalistas Laís Martins, Leandro Becker e Eduardo Goulart. A reportagem teve acesso a documentos que descrevem uma operação capaz de identificar grupos de eleitores, produzir conteúdos direcionados, criar contas falsas nas redes sociais e disseminar desinformação para influenciar disputas políticas.

Entre as estratégias oferecidas estavam ações de infiltração em grupos adversários, campanhas coordenadas de descrédito e técnicas de guerra psicológica. A tecnologia chegou a ser apresentada a pessoas ligadas à campanha de Donald Trump nos Estados Unidos, em 2024, embora não exista confirmação de que tenha sido contratada.

Não há evidências de que o sistema de manipulação eleitoral descrito nos documentos tenha sido utilizado por Flávio Bolsonaro ou pelo PL nas eleições brasileiras de 2026. A campanha afirma que contratou apenas serviços de segurança digital, enquanto a Elytron nega desenvolver ou executar operações clandestinas de influência política.

Flávio Bolsonaro e PL registraram pagamentos à Elytron

Os pagamentos à empresa aparecem no DivulgaCand, sistema da Justiça Eleitoral que reúne informações sobre receitas e despesas das campanhas.

Segundo o Intercept, três notas fiscais foram emitidas pela Elytron em nome da campanha de Flávio Bolsonaro. Duas delas, ambas de R$ 500 mil, são datadas de 16 de setembro, mas uma foi cancelada. A terceira nota, de R$ 100 mil, foi emitida em 2 de outubro. Os documentos correspondem aos R$ 600 mil registrados como pagamentos.

As descrições apresentam os serviços como consultoria em tecnologia da informação, com referências a apoio forense, investigação de phishing, testes de segurança e monitoramento de infraestrutura.

Há, entretanto, uma diferença entre os valores registrados. Na prestação de contas parcial apresentada à Justiça Eleitoral no final de setembro, a campanha declarou uma despesa de R$ 1 milhão com a Elytron.

O PL também registrou um pagamento de R$ 131,9 mil à companhia, realizado em 20 de julho, com a descrição genérica de serviços técnico-profissionais.

A documentação financeira comprova a existência das despesas registradas, mas não demonstra, por si só, que os serviços contratados no Brasil tenham relação com o sistema de manipulação descrito nos documentos obtidos pelo Intercept.

Quem é Vincent Reed, ex-consultor que denunciou a Elytron ao FBI

A investigação teve origem nas informações apresentadas por Vincent Edward Reed, empreendedor norte-americano que atuou como consultor da Elytron entre 2024 e 2025.

Reed participou das articulações para apresentar a tecnologia a pessoas ligadas à campanha presidencial de Donald Trump em 2024. Segundo seu relato, inicialmente o sistema foi descrito como uma ferramenta de análise de dados baseada em inteligência artificial.

Sua avaliação mudou quando teve acesso a uma demonstração da plataforma e passou a compreender suas possibilidades de utilização política.

O ex-consultor afirmou ter identificado mecanismos capazes de selecionar eleitores e direcionar materiais produzidos por inteligência artificial, incluindo conteúdos falsificados, conhecidos como deepfakes.

Ele declarou que a própria expressão manipulação foi utilizada durante a apresentação da tecnologia, o que o levou a questionar a legalidade e as implicações éticas da operação.

Depois de romper com o grupo, Reed encaminhou denúncias ao FBI e ao Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. Segundo o Intercept, essas iniciativas não produziram avanços nas apurações.

Ao identificar os pagamentos da campanha de Flávio Bolsonaro à Elytron, Reed decidiu procurar os jornalistas brasileiros e entregar os documentos que havia reunido.

Como funcionava o sistema de IA oferecido para manipular eleições

A apresentação comercial analisada pelo Intercept descreve uma estrutura que combina coleta de dados, inteligência artificial, segmentação de públicos e produção coordenada de conteúdos.

O sistema permitiria reunir informações sociais, econômicas e políticas para identificar grupos de eleitores, mapear suas demandas, acompanhar tendências e projetar cenários de votação.

Parte dessas atividades, como monitoramento de redes sociais, análise de tendências e segmentação de públicos, é utilizada regularmente em campanhas eleitorais e operações comerciais.

O que diferencia a proposta revelada pelo Intercept são os mecanismos de intervenção clandestina previstos na documentação.

Em vez de apenas acompanhar o comportamento dos usuários, a operação oferecida previa influenciar artificialmente a circulação de informações e a formação de opiniões.

Uma das estratégias consistia em identificar grupos específicos e introduzir determinadas mensagens para ampliar sua aceitação. Outra envolvia associar adversários a opiniões ou posições capazes de prejudicar sua imagem pública.

Os documentos mencionam a criação de contas falsas, o emprego de avatares gerados por inteligência artificial, a disseminação de boatos e operações de infiltração em redes de opositores.

Também aparecem referências a ações de um exército digital, intervenções realizadas discretamente e estratégias voltadas à demonstração de poder e controle no ambiente informacional.

A estrutura descrita seguia diferentes etapas. Primeiro, seria definido um objetivo político e identificado o público-alvo. Em seguida, seriam escolhidas as estratégias de intervenção, incluindo operações psicológicas, disseminação de desinformação e gerenciamento de opiniões.

Por fim, ocorreria a produção e distribuição de conteúdos em diferentes formatos, como textos, imagens, vídeos, memes e deepfakes, com circulação coordenada em redes sociais, blogs e veículos de imprensa.

A apresentação ainda mencionava a possibilidade de obter publicações na imprensa internacional por meio de relacionamentos comerciais, citando veículos como The New York Times, Bloomberg, The Washington Post, Reuters e CNN. A menção a esses veículos não comprova que tenham participado de qualquer operação.

Especialista identifica características de operação de influência

Para avaliar os documentos, o Intercept consultou Beatriz Farrugia, pesquisadora da agência Lupa e analista sênior de desinformação e interferência informacional estrangeira da organização Debunk, sediada na Lituânia.

Após examinar o material, Farrugia identificou elementos característicos de uma operação de influência organizada.

Esse tipo de atividade não se limita à publicação isolada de notícias falsas. Envolve planejamento, definição de objetivos, identificação de públicos e utilização de diferentes mecanismos para alterar percepções políticas.

A combinação entre segmentação de eleitores, perfis falsos, infiltração digital e distribuição coordenada de conteúdos torna a operação especialmente sensível em contextos eleitorais.

No Brasil, a execução de práticas clandestinas nesses moldes poderia violar normas eleitorais. A utilização de contas falsas e comportamentos coordenados inautênticos também contraria regras de plataformas digitais.

Quem são os empresários ligados à Elytron

Fundada em 2018 por João Lucas Melo Brasio e Felipe Garofalo, a Elytron se apresenta como uma empresa especializada em segurança cibernética e inteligência da informação.

Brasio ganhou notoriedade no mesmo ano da fundação da companhia, após afirmar ter identificado uma vulnerabilidade no DivulgaCand, sistema de divulgação de candidaturas e prestação de contas da Justiça Eleitoral.

A investigação também identificou conexões da empresa com o mercado de comunicação política. Brasio participa da Katana, agência que se apresenta como resultado de uma parceria entre a Elytron Security e a Nova Estratégia Comunicação Institucional Pública e Eleitoral.

No cenário político brasileiro, dirigentes ligados à companhia mantêm relações com pessoas do entorno de Pablo Marçal, empresário e influenciador que passou a integrar a campanha de Flávio Bolsonaro no final de setembro.

A trajetória internacional da Elytron envolve ainda conexões empresariais em Portugal e nos Emirados Árabes Unidos, embora os envolvidos apresentem versões diferentes sobre a natureza dessas relações.

Conexões da Elytron envolvem Renzo Gracie e empresários nos Emirados Árabes

O Intercept identificou registros de uma empresa associada ao nome Elytron em Portugal desde 2021. Entre os personagens envolvidos nessa atuação internacional aparecem os empresários Jorge Remígio e Ludgero Gaspar de Sousa.

Ambos utilizavam referências a posições de direção da Elytron para Europa, Oriente Médio e África. Posteriormente, Remígio afirmou exercer a função de codiretor regional, enquanto Sousa confirmou atuar como CEO nessa região, sem ocupar cargo na operação brasileira.

Segundo a investigação, Remígio detém 25% da empresa portuguesa, enquanto os outros 75% pertencem à sua esposa, Ana Remígio.

Outro personagem importante é Eric Leandri, empresário francês que preside a Aleria, companhia de inteligência artificial dos Emirados Árabes Unidos.

Leandri esteve anteriormente à frente da Altrnativ, empresa de cibervigilância que, segundo documentos publicados pelo Politico em 2022, realizou monitoramento de políticos, ativistas e dirigentes sindicais na França. Também esteve envolvido em iniciativas relacionadas à campanha presidencial de Jacob Zuma na África do Sul, em 2024.

De acordo com Reed, os executivos com quem manteve contato apresentavam vínculos comerciais tanto com a Elytron quanto com a Aleria.

A investigação também identificou relações empresariais envolvendo o lutador Renzo Gracie, conhecido por sua proximidade política com a família Bolsonaro.

Gracie é sócio de Leandri e Ludgero de Sousa na Lerco Consulting, empresa que apareceu nas articulações relacionadas à tentativa de venda do Banco Master para a Fictor e para a gestora emiradense Royal Capital.

Em 2022, Gracie também participou de articulações que aproximaram Eduardo Bolsonaro de autoridades dos Emirados Árabes Unidos durante uma visita do então deputado à região.

Procurado pelo Intercept, o lutador confirmou ser sócio e amigo dos empresários, mas negou manter qualquer relação com a Elytron ou com a Aleria.

As conexões relatadas com o setor de inteligência dos Emirados Árabes

Um dos pontos mais relevantes da investigação envolve as relações alegadas por executivos ligados à Elytron com o xeque Tahnoon bin Zayed Al Nahyan, irmão do presidente dos Emirados Árabes Unidos e conselheiro de segurança nacional do país.

Tahnoon ocupa uma posição importante na expansão dos investimentos emiradenses em inteligência artificial e tecnologias de vigilância. Ele também está associado ao International Holding Group, conglomerado com atuação em diferentes setores da economia.

Segundo Reed, empresários envolvidos nas negociações apresentavam-se como conselheiros, parceiros ou associados comerciais do xeque.

Essa informação, no entanto, decorre do relato do ex-consultor e não estabelece que Tahnoon tenha participado da oferta do sistema de manipulação eleitoral.

O histórico do setor de segurança dos Emirados ajuda a contextualizar as conexões investigadas.

Em 2019, uma reportagem da Reuters revelou a existência do Projeto Raven, operação vinculada à empresa DarkMatter que utilizou antigos integrantes da inteligência norte-americana para realizar atividades de espionagem contra dissidentes, jornalistas e ativistas.

As revelações expuseram a atuação internacional de estruturas de vigilância associadas ao governo emiradense.

A investigação do Intercept situa os contatos da Elytron e da Aleria nesse ambiente de expansão de empresas privadas de inteligência, segurança digital e tecnologia, sem demonstrar que os executivos envolvidos tenham participado do Projeto Raven.

O que dizem Flávio Bolsonaro e a Elytron sobre as denúncias

Procurada pelo Intercept, a campanha de Flávio Bolsonaro afirmou que não contrata serviços contrários à legislação eleitoral.

Segundo a assessoria, a Elytron foi contratada exclusivamente para proteger sistemas de comunicação e infraestrutura digital contra possíveis ataques cibernéticos.

A campanha também classificou como politicamente motivada a tentativa de relacionar o contrato de segurança da informação a operações de manipulação eleitoral e declarou que a contratação seguiu os procedimentos regulares.

A Elytron apresentou sua resposta após a publicação inicial da investigação, negando envolvimento na produção de notícias falsas, utilização de deepfakes ou operações clandestinas de influência sobre a opinião pública.

A companhia afirmou que oferece serviços de natureza defensiva e que não executa nem autoriza práticas de manipulação política para qualquer cliente, incluindo a campanha presidencial brasileira.

Também negou ter prestado serviços à campanha de Donald Trump e declarou não ter autorizado apresentações comerciais em seu nome envolvendo operações de influência eleitoral. A empresa informou que apuraria eventuais responsabilidades pelo possível uso indevido de sua identidade.

Sobre Portugal, a Elytron brasileira confirmou a existência de uma pessoa jurídica voltada à organização societária e tributária para eventuais negócios europeus, mas ressaltou que ela não constitui uma filial da companhia brasileira.

A empresa ainda informou que Jorge Remígio e Ludgero de Sousa são parceiros comerciais independentes, cuja relação com a Elytron brasileira se limita à prospecção e indicação de oportunidades de negócios mediante comissões.

Remígio e Sousa confirmaram ter mantido contato com Vincent Reed, mas negaram reuniões com integrantes ligados à campanha de Trump e rejeitaram a alegação de que oferecem serviços de manipulação política.

Eric Leandri não respondeu aos questionamentos encaminhados pelo Intercept até a publicação.

O que a investigação revela sobre inteligência artificial e eleições

A reportagem reúne duas informações distintas: de um lado, pagamentos documentados da campanha de Flávio Bolsonaro e do PL à Elytron; de outro, uma apresentação comercial que, segundo o ex-consultor Vincent Reed, oferecia mecanismos clandestinos para influenciar disputas eleitorais.

Os documentos permitem examinar o funcionamento da tecnologia oferecida e as relações empresariais de pessoas envolvidas em sua apresentação. Mas a investigação não comprova que a campanha presidencial brasileira tenha contratado ou utilizado esse sistema.

O caso também coloca em discussão o uso de grandes bases de dados, inteligência artificial e operações digitais coordenadas para interferir na formação de opiniões políticas, especialmente quando não há transparência sobre quem financia e organiza a circulação das mensagens.

Se utilizadas nos moldes descritos na apresentação, essas práticas ultrapassariam os limites de uma campanha convencional e poderiam comprometer a transparência e a integridade do processo eleitoral.

Fonte: Reportagem original de Laís Martins, Leandro Becker e Eduardo Goulart, publicada pelo Intercept Brasil em 16 de outubro de 2026, incluindo a atualização com o posicionamento da Elytron.