Desafios estruturais limitam políticas públicas essenciais

O economista francês Thomas Piketty, referência internacional em estudos sobre desigualdade, analisou em entrevista recente os entraves que o Brasil enfrenta para implementar uma política social efetiva em meio à crise fiscal e econômica. Embora reconheça avanços na redução da pobreza durante governos do Partido dos Trabalhadores (PT), Piketty identifica que o país convive com um sistema tributário altamente regressivo, juros reais elevados e limites orçamentários que comprometem a eficácia das políticas públicas.

Juros elevados consomem recursos que poderiam ir a saúde, educação e previdência

Segundo Piketty, o país destina uma fatia significativa de sua arrecadação para o serviço da dívida pública, num contexto de taxas reais na casa dos 9% ao ano, entre as mais altas do mundo. Esse custo elevado direciona recursos para os bancos e credores em detrimento de programas sociais como o Sistema Único de Saúde (SUS) e políticas habitacionais, mesmo enquanto persistem déficits expressivos nesses setores. O economista ressalta que essa dinâmica não é exclusiva do Brasil, mas típica de muitos países do Sul Global, evidenciando a importância de reformas também no sistema financeiro internacional.

Tributação regressiva e limites fiscais travam ampliação da rede pública

Outro ponto central apontado é a estrutura tributária brasileira, em que a parcela mais rica da população paga uma alíquota efetiva menor do que a da classe média, inibindo uma arrecadação progressiva capaz de financiar melhor as políticas públicas. O novo arcabouço fiscal que substituiu o teto de gastos mantém restringe a expansão das despesas governamentais, engessando investimentos em saúde, educação e previdência que poderiam efetivamente reduzir desigualdades e melhorar a qualidade de vida.

A combinação desses fatores faz com que o Brasil não consiga sustentar adequadamente pilares centrais do Estado social, mesmo com avanços recentes na redistribuição de renda. Portanto, segundo Piketty, superar esses obstáculos exige não apenas mudanças na presidência, mas uma reforma profunda na maioria parlamentar para alterar significativamente o sistema tributário e o quadro fiscal.

Estratégias globais e internas são necessárias para enfrentar desigualdades e crise ambiental

Além das questões locais, o economista aponta ser fundamental uma cooperação internacional que permita aos países do Sul Global acessar crédito a juros mais baixos e implementar modelos de desenvolvimento que reduzam a intensidade de carbono. Ele destaca que o Brasil, sendo um país grande e populoso, poderia desempenhar papel ativo na discussão de uma reforma global no sistema financeiro e tributário, o que demandaria um governo comprometido com essas causas — uma possibilidade mais viável no cenário do que com a extrema direita.

Em relação ao meio ambiente, Piketty sublinha que a exploração de novas reservas petrolíferas, como na Bacia da Foz do Amazonas, não representa saída sustentável para o Brasil ou para o planeta. Propõe, em contrapartida, maiores investimentos em setores menos dependentes do crescimento material e da degradação ambiental, como a educação pública, reforçando a necessidade de uma transição inclusiva e democrática rumo a um modelo econômico compatível com os desafios climáticos.

Implicações da crise política e os riscos do bolsonarismo

A entrevista foi concedida pouco após o primeiro turno das eleições presidenciais de outubro de 2026, em que a extrema direita liderou numericamente. Piketty adverte que o retorno da família Bolsonaro representaria um retrocesso grave para o Brasil, especialmente no momento em que o chamado trumpismo deve sofrer derrota nas eleições americanas. O economista defende que a única alternativa para enfrentar os problemas estruturais do país é insistir na esquerda, renovando lideranças e programas progressistas para avançar numa agenda redistributiva e democrática, ampliando o Estado social e enfrentando as desigualdades profundas.

Fonte: Piketty: o Brasil precisa vencer | Outras Palavras