Multas ambientais somam R$ 176 milhões entre candidatos na Amazônia

Na corrida eleitoral de 2026, pelo menos 75 candidatos ligados direta ou indiretamente ao agronegócio e à mineração na Amazônia Legal acumulam mais de 200 infrações ambientais registradas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). De acordo com levantamento da SUMAÚMA, essas infrações resultaram em multas que totalizam cerca de 176 milhões de reais. A maioria das autuações está relacionada a desmatamento ilegal, mineração sem licença ambiental e descumprimento de embargos.

Parte dos políticos questiona a legitimidade dessas multas administrativa ou judicialmente, e algumas penalidades já foram anuladas ou estão suspensas. O levantamento considerou apenas sanções aplicadas pelo Ibama, pois as multas estaduais não estão consolidadas em base única.

Os protagonistas da contestação ambiental e suas promessas eleitorais

Entre os nomes que mais chamam atenção está Daniel Santos, conhecido como Dr. Daniel, candidato ao governo do Pará. Ele teve aplicada pelo Ibama uma multa de 1,4 milhão de reais por desmatar 280 hectares de vegetação nativa ilegalmente, área equivalente a quase 300 campos de futebol próxima à sua fazenda em Tomé-Açu. Sua campanha defende a expansão da produção agropecuária e o enfraquecimento da fiscalização ambiental, prometendo cancelar 80% das multas lançadas na Operação Curupira, iniciativa estadual contra crimes ambientais lançada em 2023.

A vice na chapa de Daniel, Ellayne D’Almeida, engenheira e assumidamente ligada ao garimpo, também tem multas registradas, inclusive por mineração ilegal no Tapajós, região com grave contaminação por mercúrio que afeta indígenas Munduruku. A defesa dela nega a prática das autuações apontadas até o momento.

Outros aliados do bolsonarismo e do PL também integram o grupo, incluindo candidatos multados entre 2022 e 2026 que concentram um terço das infrações recentes. Esse cenário reflete como a oposição à fiscalização ambiental virou bandeira eleitoral na região.

Casos emblemáticos e o fortalecimento dos interesses do agronegócio

Antonio Galvan, ex-presidente da Aprosoja-Mato Grosso e candidato ao Senado pelo Avante, registra multas por instalação irregular de pista para aviões de pulverização aérea. Figura ligada a atuações contra pactos ambientais como a Moratória da Soja, ele também foi alvo das investigações sobre o financiamento dos atos antidemocráticos de 7 de setembro de 2021, mas não comentou as denúncias.

Já no Acre, José Lopes Júnior, do Republicanos, tenta assumir um assento na Assembleia Legislativa com um império agropecuário que acumula mais de 80 multas ambientais que somam 86 milhões de reais, herança familiar de infrações e disputas judiciais. Ele e empresas da família figuraram inclusive na lista suja do trabalho escravo em 2014.

Fiscalização ambiental na mira e desafios para a proteção da Amazônia

As dificuldades de transformar multas em punições finais são evidentes nos processos administrativos, que podem levar em média cinco a seis anos para serem efetivados. Muitas autuações estão suspensas, prescritas ou aguardam julgamento. Exemplo é o caso do candidato Daniel Messac, multado em 50 milhões de reais pelo desmatamento ilegal na APA Triunfo do Xingu, que teve a multa anulada em primeira instância por falta de prova definitiva e cujo processo ainda corre. Outro caso emblemático é o do presidente da Câmara do Recife, Romerinho Jatobá, multado por desmatamento na mesma área, e cujo embargo também foi revertido judicialmente.

Além das infrações, o vínculo entre a propriedade, a exploração econômica e o discurso político de enfraquecimento da proteção ambiental evidencia um projeto comum de expansão do agronegócio e mineração em áreas tradicionais e protegidas, muitas vezes às custas de comunidades indígenas e povos da floresta.

Confrontos políticos e judiciais frente à fiscalização ambiental indicam que as eleições de 2026 podem marcar um avanço legislativo e administrativo para desmantelar os mecanismos de controle ambiental, com impactos preocupantes para a conservação da floresta amazônica e a resistência dos povos originários.

Esse quadro, apurado e consolidado pelo monitoramento da SUMAÚMA, reforça a tensão entre a preservação ambiental e os interesses econômicos que dominam a política regional, indicando um cenário de desafios para a defesa da Amazônia como patrimônio ambiental e social.

Fonte: SUMAÚMA