Nas margens do Rio Danúbio, o recuo das águas trouxe à tona relíquias da Segunda Guerra Mundial: navios nazistas, munições, motocicletas militares que testemunham um passado sombrio e parecem uma ameaça ainda viva. Esse fenômeno não é apenas uma curiosidade histórica, mas uma metáfora para a persistente e crescente presença da extrema-direita na Europa e no mundo.
Nos últimos anos, como retratado em uma análise publicada no Outras Palavras a partir do trabalho conjunto de Naomi Klein e Astra Taylor, partidos como a Alternativa para a Alemanha (AfD) e o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ) alcançam avanços eleitorais significativos, concedendo espaço político a discursos racistas, xenófobos e revisionistas do nazismo. Essas forças, alinhadas a figuras como Elon Musk, que tem demonstrado apoio à extrema-direita, ilustram a construção recente do que se denomina “fascismo apocalíptico”.
Este fascismo não é mera reedição histórica, mas sim um fenômeno que surge em uma conjuntura inédita: a crise climática severa, as ameaças nucleares, o avanço descontrolado da inteligência artificial e a concentração extrema de poder econômico tecnológico nas mãos de bilionários. Diferente do fascismo do século 20, que prometia uma era gloriosa para um grupo nacional puro, o fascismo contemporâneo aposta em um cenário de destruição constante e sobrevivência para uma minoria privilegiada, enquanto a maioria enfrentaria os “tempos difíceis” eternizados no caos e na exclusão social.
Na política, esse fascismo se manifesta em alianças conflituosas entre fundamentalistas religiosos que veem na destruição apocalíptica uma execução de profecias, elites tecnológicas que promovem um niilismo messiânico em torno de tecnologias que podem significar fim ou salvação da humanidade, e nacionalistas étnicos que buscam a fortificação de fronteiras e a exclusão dos migrantes. A escalada da extrema-direita na Europa, com líderes como Santiago Abascal, que desviam o foco das crises reais para discursos contra migrantes, revela uma estratégia de manipulação da insegurança social e do medo do futuro.
O contexto de crise climática é dramático: verões com secas históricas, incêndios florestais, ondas de calor e mortes em massa alimentam a desorientação e o medo, criando terreno fértil para discursos autoritários. Esses discursos projetam os problemas ambientais em teorias da conspiração sobre “invasões” e “apagamento cultural”, desviando das responsabilidades reais dos governos e das elites econômicas.
O fascismo apocalíptico, portanto, é um fenômeno que explora a precarização crescente e a sensação de futuro roubado, sobretudo entre jovens. Ele não oferece uma saída de construção coletiva, mas apenas uma narrativa de catástrofe inevitável, onde poucos sobreviverão, protegidos por muros, poder tecnológico e privilégios econômicos.
Contrastando com essa ameaça, a história também aponta alternativas. Franklin Delano Roosevelt, ao enfrentar a crise da década de 1930, aumentou o investimento público para garantir emprego e segurança social, minando a base dos autoritarismos emergentes daquela época. Hoje, a lição permanece: o combate ao fascismo exige atacar as causas materiais da instabilidade — a desigualdade extrema, a destruição ambiental e o desmonte das condições de vida digna. Sem isso, o apelo de narrativas autoritárias apocalípticas tende a crescer.
O fascismo do fim dos tempos, portanto, é uma projeção dos riscos e contradições do capitalismo globalizado e sua crise civilizatória, que exige respostas conjuntas e transformadoras para evitar cenários decadentes e excludentes promovidos por elites que lucram com o caos.



