Drama do interior cearense traz à tona tema da saúde mental em comunidades atingidas por barragens

O filme brasileiro “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton e selecionado para competir ao Oscar, ilustra de forma sensível os danos psicológicos que as tragédias provocadas por barragens podem causar às populações locais. A narrativa se passa no interior do Ceará e utiliza a inundação de uma antiga cidade como metáfora para abordar perdas afetivas e o avanço do Alzheimer em uma das personagens centrais.

Enredo e simbolismo por trás da história

O protagonista Gugu, interpretado por Yuri Gomes, é uma criança criada pela avó Batista (Teca Pereira), a qual sofre de Alzheimer. A presença da barragem representa a dupla face da infraestrutura: fonte de benefícios, mas também agente de desestruturação social e emocional devido ao deslocamento forçado de famílias. Segundo Deberton, a barragem simboliza a desestruturação das relações e memórias,
que se interligam à doença da avó, representando memórias perdidas que resgatam laços familiares, especialmente a figura da mãe de Gugu, mulher forte e resiliente no enredo.

Olhar pessoal e regional

Natural de Russas, no Ceará, Allan Deberton destaca que o filme é construído a partir de um olhar íntimo e delicado sobre o sertão e as famílias conservadoras locais. O roteiro de André Araújo, também do sertão, reflete a sensação de não pertencimento e o desejo de uma infância diferente, através da experiência de Gugu. A trajetória do roteirista inclui o contato direto com comunidades afetadas por barragens no Rio Grande do Norte, experiência que inspirou o foco nas consequências para os moradores dessas regiões.

Contextualização social e ambiental

O diretor evita uma crítica direta às barragens, reconhecendo sua importância no combate aos impactos da seca que assola o Nordeste periodicamente. No entanto, enfatiza os altos custos humanos e sociais do deslocamento compulsório, que destrói rotinas, afetos e patrimônios culturais e familiares. O filme, mais do que um manifesto, busca provocar reflexão sobre esses paradoxos através da construção narrativa e simbólica

Imagem: Cena do filme com Lázaro Ramos e Yuri Gomes (foto por Jamille Queiroz)

Fontes consultadas