Alta dos juros nos Estados Unidos sinaliza nova fase do capitalismo
Em 16 de setembro de 2026, os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos ultrapassaram pela primeira vez desde 2007 a marca de 5%, indicando um ponto de inflexão no sistema capitalista global. Historicamente vistos como investimentos seguros, esses títulos agora enfrentam uma demanda reduzida diante da competição com ativos privados, principalmente ações vinculadas ao setor de inteligência artificial (IA).
Segundo reportagem do Viento Sur, fluxo de capital internacional nos EUA tem privilegiado o mercado acionário privado, que já representa 2,8% do PIB, em detrimento da dívida pública, que corresponde a 2%. Esta tendência inédita no século XXI (exceto durante crises passadas em 2008 e 2020) revela uma preferência dos investidores por retornos ligados a empresas privadas, sobretudo ligadas à IA.
Recuo da demanda estrangeira por dívida pública e impacto global
O artigo ressalta que investidores estrangeiros reduziram significativamente suas participações em títulos do Tesouro americano, com países como Japão e China diminuindo suas exposições em mais de 12%. Em paralelo, a Europa e outras economias tradicionais, como Alemanha, Japão e Suíça, têm visto aumentos expressivos nas taxas de juros de seus títulos públicos, por exemplo, o Bund alemão subiu de 2,86% para 3,54% entre janeiro e setembro de 2026.
Essa dinâmica não é explicada apenas pela inflação ou pelos níveis de dívida pública, mas também pelo fato de que o capital privado, alimentado pela promessa de lucros da IA, está atraindo os investidores, o que reduz a demanda por dívida soberana.
Competição entre Estado e setor privado e suas implicações
O banco Deutsche Bank identifica essa mudança como um “importante salto nos mercados”, evidenciando que os Estados perderam a demanda “cativa” que tinham junto a bancos centrais, seguradoras e fundos institucionais. Essa pressão obriga os Estados a se reorientarem financeira e politicamente, passando a funcionar cada vez mais como empresas privadas em competição com o setor tecnológico e financeiro. Isso implica cortes em gastos públicos considerados improdutivos, especialmente na área social, em favor de setores com retornos mais garantidos pelo capital privado, como defesa.
Assim, o Estado deixa de priorizar o bem-estar social para priorizar a rentabilidade e os pagamentos aos credores, enquanto o setor financeiro consolida sua hegemonia sobre as receitas públicas. Isso pode acarretar uma nova onda de austeridade, aumento da repressão social e fortalecimento da extrema-direita, que atua como vetor político do projeto capitalista que subordina o Estado aos interesses do capital.
Limites e riscos desse modelo
Apesar do otimismo dos mercados em relação à IA, os recursos naturais limitados e a crise climática configuram um cenário de insustentabilidade para esse modelo de desenvolvimento acelerado e predatório. Além disso, a submissão dos Estados ao capital financeiro fragiliza economias fortemente dependentes do consumo massivo e tende a agravar tensões sociais e políticas.
Para compreender essa dinâmica no contexto latino-americano, o leitor pode consultar nossa análise sobre América Latina entre soberania, dependência e novas alianças.
