Mobilização de centenas de milhares de jovens contra a precarização da educação pública enfrenta repressão policial, denuncia o racismo institucional e ganha dimensão antifascista.

A França atravessa uma das maiores ondas de mobilização estudantil de sua história recente. Desde o final de setembro, estudantes secundaristas ocupam as ruas, bloqueiam escolas e organizam manifestações contra a deterioração do ensino público. O movimento, que começou nos bairros populares, espalhou-se pelo país e reuniu, segundo o jornal L’Anticapitaliste, quase meio milhão de manifestantes nas jornadas de 6 e 13 de outubro.

A reivindicação inicial é relativamente simples: escolas em condições de funcionar, professores suficientes, turmas menores e igualdade de oportunidades. Mas a revolta rapidamente ultrapassou os muros das instituições de ensino. A violência da resposta policial, o racismo denunciado pelos estudantes e a perspectiva de avanço da extrema direita transformaram a mobilização em um confronto político mais amplo sobre o futuro da sociedade francesa.

Um dossiê publicado em 15 de outubro pelo semanário L’Anticapitaliste, ligado ao Novo Partido Anticapitalista (NPA), reúne análises sobre a dimensão social, política e antirracista desse movimento. Produzido com contribuições da Juventude Anticapitalista e das comissões de Educação e Antirracismo da organização, o material descreve uma geração que já não acredita na promessa de que estudar e trabalhar duro será suficiente para conquistar uma vida melhor.

Uma escola cada vez mais desigual

O desgaste da educação pública francesa está no centro da revolta. A onda de calor que atingiu o país em junho tornou ainda mais evidentes as condições precárias dos prédios escolares, muitos deles sem estrutura adequada para enfrentar temperaturas extremas. Com a aproximação do inverno, o problema se inverte: faltam instalações capazes de garantir ambientes aquecidos.

A insuficiência de professores, a falta de substitutos e a superlotação das salas agravam uma rotina marcada por jornadas que podem começar às oito da manhã e terminar às seis da tarde. Somadas ao tempo de deslocamento e às tarefas realizadas em casa, essas exigências praticamente eliminam as possibilidades de descanso.

A pressão também se manifesta no sistema de avaliação e no acesso ao ensino superior. O Parcoursup, plataforma francesa de seleção e distribuição de vagas universitárias, é alvo de críticas por reforçar mecanismos de competição e diferenciação social. Para os estudantes, cada nota pode influenciar decisivamente suas oportunidades futuras, embora as condições concretas de aprendizagem estejam longe de ser iguais.

Os efeitos dessa realidade vão além do rendimento escolar. Dados de uma pesquisa de saúde pública citados pelo NPA apontam que 19% dos estudantes secundaristas apresentam risco elevado de depressão. Outra pesquisa, realizada pelo instituto OpinionWay para a organização Action contre la Faim, indica que um em cada quatro jovens franceses entre 18 e 24 anos não dispõe sempre de alimentação suficiente.

A contradição é evidente: exige-se cada vez mais desempenho individual de uma geração à qual são oferecidas condições materiais cada vez mais desiguais.

A revolta começou nas periferias

Não é casual que a mobilização tenha ganhado força inicialmente nos bairros operários e populares. Nessas regiões, a precariedade das escolas se combina com desigualdades territoriais, discriminação racial e menores oportunidades de continuidade dos estudos.

Entre as principais reivindicações está um investimento emergencial nos estabelecimentos historicamente negligenciados. Em Seine-Saint-Denis, departamento da região metropolitana de Paris conhecido pela presença de bairros populares e comunidades de origem imigrante, organizações sindicais já haviam calculado, em 2024, a necessidade de 358 milhões de euros em recursos humanos adicionais, incluindo a contratação de cinco mil professores.

Os estudantes também reivindicam a redução do número de alunos por turma, a contratação de profissionais de saúde, a reforma dos prédios, a gratuidade efetiva da educação e o fim de mecanismos de seleção que reproduzem desigualdades sociais.

A pauta inclui ainda o direito à escolarização de jovens imigrantes, independentemente de sua situação documental, e a oposição a medidas consideradas discriminatórias contra estudantes muçulmanos.

Há, portanto, uma dimensão de classe e raça que não pode ser separada da questão educacional. A luta por melhores escolas tornou-se também uma contestação das hierarquias sociais que determinam quem terá acesso às melhores oportunidades e quem será empurrado para trajetórias profissionais que não escolheu.

Uma repressão que deixa adolescentes mutilados

A resposta do Estado francês tem sido marcada pelo emprego de grande aparato policial, milhares de detenções e denúncias de violência contra menores de idade.

Um dos episódios mais graves ocorreu em Lens, no norte do país, onde um estudante de 15 anos perdeu uma das mãos após a explosão de uma granada utilizada pelas forças policiais. Em Tours, outro adolescente perdeu a visão de um olho. Em Saint-Ouen-l’Aumône, Eden, de apenas 14 anos, sofreu fraturas na mandíbula e perdeu dentes depois de ser atingido por um projétil lacrimogêneo.

Esses acontecimentos passaram a simbolizar o grau de violência empregado contra a mobilização. As circunstâncias de diversos episódios são objeto de investigações, enquanto organizações de direitos humanos questionam o uso de armamentos potencialmente mutiladores no controle das manifestações.

Até 8 de outubro, de acordo com os números do Ministério da Justiça reproduzidos pelo L’Anticapitaliste, haviam sido contabilizadas 6.877 detenções sob custódia policial, envolvendo 5.890 menores de idade.

A repressão também atingiu o funcionamento das instituições de ensino. Mais de 400 escolas secundárias foram fechadas pelas autoridades, enquanto se buscava impor atividades remotas nos estabelecimentos mobilizados.

Para o NPA, a estratégia governamental pretende intimidar os estudantes, desmobilizar os bloqueios e impedir que o movimento se transforme em uma contestação mais ampla.

As denúncias assumem uma gravidade particular quando consideradas as relações historicamente conflituosas entre a polícia e a juventude dos bairros populares franceses. Muitos dos adolescentes envolvidos nas manifestações pertencem à geração que acompanhou, em 2023, a revolta provocada pela morte de Nahel Merzouk, jovem de 17 anos morto por um policial durante uma abordagem de trânsito.

A experiência da violência policial, portanto, não começou nas manifestações estudantis. Ela já fazia parte da realidade de muitos desses jovens.

A imprensa fala dos confrontos, mas pouco das reivindicações

Outro aspecto destacado pelo dossiê é o tratamento dispensado pelos grandes meios de comunicação franceses à mobilização.

Segundo levantamento da Acrimed, organização francesa de crítica da mídia, os telejornais da France 2 dedicaram aproximadamente 25 minutos ao movimento entre 28 de setembro e 1º de outubro. Desse total, mais de 19 minutos abordaram episódios de violência e confrontos, enquanto menos de dois minutos foram destinados às reivindicações estudantis. As denúncias de violência policial receberam apenas 47 segundos.

Uma análise da ALATV sobre a cobertura da TF1 e da France 2 também identificou que 17 de 26 reportagens começaram com imagens de incêndios.

Essa seleção editorial contribui para deslocar o centro do debate. Em vez de discutir a falta de professores, a deterioração das escolas e a desigualdade no acesso à educação, a cobertura passa a privilegiar os confrontos com a polícia e os danos materiais.

O enquadramento não é neutro. Quando os estudantes aparecem principalmente como responsáveis por tumultos, sua capacidade de formular reivindicações políticas fica em segundo plano. Ao mesmo tempo, a violência policial é frequentemente apresentada como reação necessária à desordem.

O governo também tem procurado associar as manifestações à atuação da esquerda radical, especialmente à França Insubmissa (LFI), organização liderada por Jean-Luc Mélenchon. O NPA questiona essas acusações e aponta que a narrativa da manipulação política desconsidera a capacidade dos próprios estudantes de reconhecer seus problemas e organizar uma resposta coletiva.

Trata-se de uma disputa sobre quem tem legitimidade para falar politicamente. Ao reduzir a mobilização juvenil a um problema de segurança ou à suposta influência de organizações partidárias, a cobertura acaba por esvaziar suas causas sociais.

O antifascismo entra nas manifestações

À medida que a revolta se amplia, os protestos também incorporam palavras de ordem contra o racismo, a extrema direita e a política de militarização.

O crescimento da Reunião Nacional (RN), partido de extrema direita historicamente associado à família Le Pen, aparece como uma preocupação entre os manifestantes. Parte significativa dos estudantes ainda não tem idade para votar, mas já percebe que os resultados eleitorais dos próximos anos podem alterar profundamente suas condições de vida.

A presença de palavras de ordem antifascistas expressa uma recusa em deixar o futuro político do país exclusivamente nas mãos das instituições eleitorais. Os jovens reivindicam o direito de participar das decisões que afetarão diretamente suas vidas, mesmo antes de conquistar o direito formal ao voto.

As manifestações também têm sido acompanhadas por expressões de solidariedade à Palestina e críticas à prioridade concedida aos gastos militares enquanto serviços públicos enfrentam restrições orçamentárias.

Essa combinação de reivindicações educacionais, antirracismo, solidariedade internacional e oposição à extrema direita revela uma politização que ultrapassa as demandas corporativas do movimento estudantil.

A possibilidade de uma mobilização mais ampla

O principal desafio agora é transformar a força das manifestações em um movimento capaz de manter sua organização e ampliar sua base social.

O NPA defende que os trabalhadores participem da mobilização por meio de greves e assembleias, associando as reivindicações estudantis às lutas salariais, à defesa dos serviços públicos e à oposição às políticas de austeridade.

A aproximação entre estudantes, professores, funcionários da educação e trabalhadores de outros setores já apareceu nas convocatórias de greve de 13 de outubro. Para os anticapitalistas franceses, essa convergência é decisiva para modificar a correlação de forças diante do governo.

O calendário apresenta, porém, dificuldades. As férias escolares começam em 17 de outubro e podem interromper os bloqueios, dispersar os estudantes e enfraquecer a articulação entre os estabelecimentos. Uma nova jornada de mobilização está prevista para 5 de novembro, após a retomada das aulas.

A organização sindical e estudantil terá de enfrentar esse intervalo sem perder o impulso das semanas anteriores.

A data de 17 de outubro também possui um significado histórico particular. Em 1961, manifestantes argelinos foram massacrados pela polícia francesa em Paris, durante um protesto contra medidas discriminatórias. A memória desse episódio estabelece uma conexão entre as lutas antirracistas do passado e as denúncias atuais sobre a atuação policial nos bairros populares.

Uma disputa pelo futuro da França

A revolta estudantil francesa reúne contradições que se acumularam ao longo de décadas: desigualdades educacionais, precarização dos serviços públicos, discriminação racial, violência policial e perda de expectativas de ascensão social.

Sua força está justamente em tornar visíveis essas questões de maneira simultânea.

O governo pode tentar reduzir a mobilização a um problema de ordem pública. A imprensa pode privilegiar os confrontos em detrimento das reivindicações. Mas nenhuma dessas respostas elimina as condições que levaram centenas de milhares de jovens às ruas.

O que começou como uma reação à precariedade das escolas transformou-se em uma disputa sobre o modelo de sociedade que a França está oferecendo às novas gerações.

A continuidade do movimento e sua possível aproximação com o mundo do trabalho indicarão se essa revolta conseguirá ultrapassar o ciclo imediato de manifestações. Independentemente de seu desfecho, os estudantes já colocaram em evidência uma questão política central: uma geração que encontra cada vez mais obstáculos para construir seu futuro começa a contestar também aqueles que decidem por ela.


Nota editorial: Reportagem elaborada pelo Diário do Interregno a partir do dossiê La révolte de la jeunesse ouvre une brèche, publicado na edição nº 818 do semanário francês L’Anticapitaliste, em 15 de outubro de 2026. O material original foi produzido pela redação do jornal, com contribuições das Jeunesses Anticapitalistes, da Commission éducation nationale e da Commission nationale antiraciste, vinculadas ao Novo Partido Anticapitalista (NPA). Texto reescrito, reorganizado e adaptado editorialmente para o público brasileiro.

Fonte original: https://lanticapitaliste.org/arguments/la-revolte-de-la-jeunesse-ouvre-une-breche