Em junho de 2024, uma mobilização iniciada contra um pacote de aumento de impostos transformou-se rapidamente em uma das maiores crises políticas recentes do Quênia.
Jovens ocuparam as ruas de Nairóbi e de outras cidades. Em 25 de junho, manifestantes chegaram ao complexo do Parlamento. No dia seguinte, o presidente William Ruto anunciou que não sancionaria o Finance Bill que havia desencadeado os protestos.
O movimento chamou atenção internacional também pela forma como se organizava. Não havia um partido comandando as manifestações, uma grande central sindical à frente dos protestos ou uma liderança capaz de falar em nome de todos.
A organização acontecia, em grande medida, pelas redes.
X, WhatsApp, Telegram, TikTok e Instagram serviram simultaneamente para discutir estratégias, compartilhar rotas das manifestações, organizar ajuda jurídica e médica e traduzir para milhões de pessoas uma proposta fiscal até então restrita a debates mais especializados.
A imagem que rapidamente ganhou o mundo foi a de uma revolta da Geração Z organizada pela internet e praticamente “sem líderes”.
Dois anos depois, alguns dos próprios organizadores contestam essa descrição.
Em ensaio publicado em setembro de 2026 pelo Journal of Democracy, os ativistas quenianos Kinuthia Ndung’u e Wanjira Wanjiru argumentam que o movimento não era exatamente desprovido de liderança. A liderança estava distribuída.
Para eles, um movimento pode ser descentralizado e, ao mesmo tempo, coordenado. A distinção ajuda a entender não apenas o que aconteceu no Quênia, mas um dilema cada vez mais presente nas mobilizações políticas organizadas em ambientes digitais.
Uma revolta que não nasceu de repente
O estopim dos protestos foi o Finance Bill de 2024, um pacote de medidas tributárias apresentado pelo governo de William Ruto.
Mas o conflito ia muito além de uma disputa sobre impostos.
O Quênia convivia com endividamento elevado, pressão por ajuste fiscal, desigualdade social e uma longa relação com programas de reformas econômicas associados a organismos internacionais.
Para Ndung’u e Wanjiru, reduzir os protestos a uma revolta geracional também esconde questões mais profundas: dívida, corrupção, violência estatal, influência externa sobre a economia e as próprias estruturas históricas da economia política queniana.
O Finance Bill expôs essas tensões de maneira particularmente concreta.
A reação foi rápida. Em poucos dias, a palavra de ordem contra a proposta tributária passou a conviver com reivindicações mais amplas contra o governo e contra o Fundo Monetário Internacional.
Mas essa velocidade não significava espontaneidade absoluta.
Segundo os dois organizadores, por trás da mobilização havia anos de trabalho comunitário, educação política e atuação de movimentos locais. Eles próprios já participavam havia anos do Social Justice Movement, uma rede de organização popular no país.
O digital não criou esse processo do nada.
Permitiu que uma infraestrutura política construída anteriormente alcançasse escala nacional com enorme velocidade.
Liderança sem líder
A ausência de uma figura central também cumpria uma função política.
Movimentos organizados em torno de poucas lideranças oferecem ao Estado interlocutores claramente identificáveis. Esses dirigentes podem ser pressionados, presos, cooptados ou chamados para negociações que acabam deslocando decisões do conjunto do movimento para um pequeno grupo.
A estratégia adotada no Quênia procurava dificultar justamente esse mecanismo.
A liderança era distribuída entre diferentes organizadores, comunidades e redes. Quando alguém era preso, desaparecia ou perdia legitimidade, outras pessoas podiam assumir suas funções.
O movimento também se apresentava como independente de partidos e das divisões étnicas que historicamente atravessam a política queniana.
Isso não significava ausência de organização.
Significava que coordenação e autoridade estavam dispersas.
É aí que a infraestrutura digital se torna politicamente importante.
Espaços de áudio no X eram utilizados para debate estratégico e coordenação em tempo real. Grupos de WhatsApp e Telegram organizavam deslocamentos e rotas durante os protestos. Criadores no TikTok e no Instagram transformavam propostas fiscais complexas em explicações acessíveis para públicos muito maiores.
Até o financiamento seguia essa lógica distribuída.
Organizadores arrecadavam dinheiro diretamente da população pelo M-Pesa, sistema de pagamentos móveis amplamente utilizado no país, para cobrir despesas como atendimento médico, fianças e apoio às famílias de vítimas. Médicos, enfermeiros e advogados também passaram a oferecer trabalho voluntário aos manifestantes.
As plataformas não estavam apenas divulgando o movimento.
Em parte, elas constituíam sua própria infraestrutura.
O Estado também está na rede
Essa estrutura, entretanto, não anulou a capacidade de repressão.
As mesmas redes utilizadas pelos manifestantes passaram a ser ocupadas por informações falsas, rotas fraudulentas e outras estratégias de desorganização.
Organizadores também foram presos e sequestrados.
Segundo os dados reunidos por Ndung’u e Wanjiru, o órgão queniano responsável pela fiscalização da polícia registrou 62 mortes relacionadas aos protestos de 2024. A comissão nacional de direitos humanos documentou 60 mortes e 601 feridos em um dos períodos de maior repressão, enquanto a Amnesty Kenya registrou 83 sequestros e mais de 2 mil prisões arbitrárias.
A repressão continuou depois da retirada do Finance Bill.
Em 2025, manifestações realizadas no aniversário dos protestos e durante os atos conhecidos como Saba Saba voltaram a resultar em dezenas de mortes.
Em junho de 2026, no segundo aniversário da ocupação do Parlamento, familiares de mortos nas manifestações também foram impedidos pela polícia de realizar uma homenagem diante do prédio.
A experiência expõe uma contradição das mobilizações contemporâneas.
As redes podem reduzir o custo da organização, acelerar a circulação de informações e dificultar a concentração do poder em poucas pessoas.
Mas o Estado também aprende a atuar nesse ambiente.
E a capacidade de mobilizar rapidamente não resolve outro problema, ainda mais difícil: o que fazer depois que as ruas esvaziam.
Depois da explosão
Retirar uma proposta do governo e construir uma organização capaz de disputar os rumos de um país são tarefas diferentes.
Foi justamente aí que começaram a aparecer os limites do modelo horizontal.
A mesma estrutura distribuída que dificultava a repressão e a cooptação também tornava mais difícil resolver divergências estratégicas, organizar recursos, construir mecanismos de responsabilização e criar instituições capazes de sobreviver aos indivíduos que participavam delas.
Uma das primeiras tentativas foi a criação do National Coordinating Committee for the People’s Assemblies, uma articulação que reuniu organizações populares, partidos e ativistas.
A experiência não durou.
Diferenças ideológicas entre liberais, anarquistas, marxistas e outros setores, conflitos pessoais e disputas pelos poucos recursos disponíveis contribuíram para a fragmentação.
A conclusão dos próprios organizadores é simples, mas importante: havia sido muito mais fácil construir acordo sobre aquilo que rejeitavam do que sobre aquilo que pretendiam construir.
Outras experiências surgiram depois.
O National People’s Council tentou estruturar conselhos populares a partir das comunidades, mas perdeu força depois de sua primeira convenção.
A Kenya Left Alliance passou a reunir organizações anticapitalistas e social-democratas na tentativa de construir capacidade política entre trabalhadores e desempregados.
Outra iniciativa, a campanha Niko Kadi, voltou-se para o registro eleitoral de jovens antes das eleições de 2027.
Nenhuma dessas experiências resolveu completamente o problema.
Mas todas respondem à mesma pergunta deixada pelos protestos.
Da rede para a organização
A experiência queniana faz parte de uma transformação mais ampla das formas de mobilização política.
Movimentos recentes em diferentes países combinam organizações locais, influenciadores, grupos de mensagens, redes informais e plataformas digitais de uma maneira que dificilmente cabe nas antigas categorias de partido, sindicato ou movimento social.
Essa estrutura pode permitir que mobilizações cresçam numa velocidade que organizações tradicionais raramente conseguem acompanhar.
Mas velocidade não é sinônimo de permanência.
Dois anos depois das grandes manifestações de 2024, muitos grupos de WhatsApp e Telegram utilizados durante os protestos quenianos já haviam perdido atividade.
Alguns organizadores se afastaram. Outros retornaram ao trabalho comunitário. Parte passou a construir novas organizações ou a disputar outros espaços políticos.
Para Ndung’u e Wanjiru, a experiência mostrou tanto a força quanto os limites da organização distribuída.
Se pudessem reconstruir o movimento desde o início, afirmam que criariam mais cedo mecanismos permanentes de decisão coletiva e responsabilização, fortaleceriam a ligação entre mobilização digital e organização territorial e estruturariam redes de cuidado para ativistas submetidos à repressão.
A experiência queniana sugere, portanto, que o problema não está simplesmente em escolher entre horizontalidade ou liderança.
A questão é como distribuir autoridade sem dissolver a capacidade coletiva de decidir.
As redes podem colocar centenas de milhares de pessoas em movimento, impedir que poucas lideranças monopolizem uma mobilização e dificultar estratégias tradicionais de cooptação.
Mas nenhuma plataforma resolve automaticamente a pergunta que aparece no dia seguinte ao protesto: como transformar mobilização em organização e organização em poder político duradouro?
Fontes
Este texto foi elaborado a partir do ensaio “What ‘Leaderless’ Actually Means”, de Kinuthia Ndung’u e Wanjira Wanjiru, publicado pelo Journal of Democracy em setembro de 2026. Os autores são organizadores quenianos que participaram diretamente das mobilizações iniciadas em 2024. Dados e informações sobre repressão, organizações políticas e desdobramentos posteriores foram apresentados e atribuídos conforme as fontes reunidas no ensaio original.